Capítulo 1 sem título

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O abraço tinha durado poucos segundos.

Para qualquer outra pessoa, teria sido um gesto simples — reconfortante, quase automático. Para Wandinha Addams, porém, aqueles poucos segundos foram o suficiente para desestabilizar algo que ela sequer sabia que existia dentro dela.

Ela ficou rígida no momento em que os braços de Enid envolveram seu corpo. Sua primeira reação foi de choque puro, quase como um reflexo elétrico percorrendo sua espinha. O toque era quente, inesperadamente suave... e persistente.

Wandinha não retribuiu.

Mas também não afastou.

E isso, por si só, já era um erro grave.

Quando Enid finalmente se soltou, com aquele sorriso luminoso que parecia desafiar todas as leis naturais da escuridão que Wandinha tanto prezava, a Addams apenas a encarou — silenciosa, imóvel.

— Eu... precisava disso — disse Enid, ainda próxima demais.

Wandinha apenas assentiu, com a expressão neutra.

Mas algo havia acontecido.

Algo irreversível.

Porque, pela primeira vez em sua vida... Wandinha Addams não odiou um toque.

Ela gostou.

E isso a aterrorizou.

Nos dias seguintes, Wandinha fez o que sempre fazia diante de algo desconhecido: analisou, dissecou, tentou compreender.

Sem sucesso.

Ela tentou racionalizar.

Talvez fosse apenas uma resposta fisiológica. Um erro químico. Um reflexo involuntário causado por algum tipo de fadiga emocional.

Mas nenhuma dessas explicações parecia suficiente.

Porque não era só o toque.

Era Enid.

A forma como ela havia se aproximado sem hesitação. Como seus braços se encaixaram perfeitamente ao redor de Wandinha, como se aquilo fosse... natural.

Como se Wandinha fosse alguém que merecesse ser abraçada.

A ideia era absurda.

Wandinha não precisava de afeto. Nunca precisou. Nunca quis.

E, ainda assim... aquele momento insistia em se repetir em sua mente, com uma clareza perturbadora.

O calor.

A proximidade.

A sensação estranha... de conforto.

Wandinha passou a evitar Enid no mesmo dia.

Duas semanas.

Quatorze dias de silêncio calculado, de horários ajustados milimetricamente para evitar encontros, de respostas curtas, distantes, quase mecânicas.

Enid percebeu no terceiro dia.

No quinto, começou a se preocupar.

No décimo, já estava magoada.

No décimo quarto... ela explodiu.

Wandinha estava sentada em sua mesa, escrevendo, quando a porta do quarto foi aberta com força.

Ela não precisou levantar os olhos para saber quem era.

— A gente precisa conversar.

A voz de Enid estava diferente.

Eu... Gostei?Where stories live. Discover now