LEMBRANÇAS AMARGAS - (INÍCIO DE TUDO)

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Olá, boa tarde a todos! Trago uma nova inspiração para uma história. Contudo, esta obra é diferente da que estou desenvolvendo atualmente: 'Meu antigo e novo Senhor'. Já deixo de aviso que:

(Aviso: Ela aborda temáticas sensíveis, como abandono, negligência, linguagem de baixo calão e traumas, conflitos familiares entre outros.)

Aqueles que decidirem continuar, sejam bem-vindos. Espero que este livro traga algum tipo de alívio e consolo.

Boa leitura a todos! 👋🏼 🥹
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Capítulo 1: Amargas Lembranças (Início de tudo)

Nem toda história começa como um conto de fadas; alguns começos podem ser cruéis. Vou contar a minha e veremos se você conseguirá permanecer até o final.

Sons e gritos compunham a confusão instalada naquele lugar. A vizinhança já estava exausta; era sempre a mesma coisa. Vez ou outra, chamavam a polícia para intervir; os oficiais faziam seus relatórios e iam embora.

Ouviam-se xingamentos e o barulho de copos e talheres. O cenário daquela cozinha era caótico: pedaços de vidro espalhados por todos os lados e o pequeno cachorro, que latia e choramingava, era um verdadeiro misto de tristeza e confusão.

No outro cômodo da casa, estava eu: pequeno e indefeso, ouvindo tudo o que acontecia. Quando me lembro desses dias, meu estômago ainda embrulha. Eu tinha apenas dez anos e minha irmãzinha, sete. Estávamos juntos naquele pequeno quarto que dividíamos, enquanto eu tentava, a todo custo, cobri-la com a manta que compartilhávamos.

— Não escute. Vamos, feche os ouvidos comigo — pedi à menina, que negava com a cabeça, claramente assustada. Seus olhos transpareciam pavor.

— Não posso... não consigo, Nico — confessou ela. Ao vê-la tremer ao meu lado, abracei-a para confortá-la.

— Consegue sim. Olhe para mim, Vitória. Vamos, olhe para mim — insisti, vendo a menina finalmente desviar os olhos da fresta da porta — que iluminava o quarto escuro — para me encarar. — Eu não disse que te protegeria? Fique calma, eu estou aqui com você.

— Por que a mamãe e o papai sempre brigam? Eles não poderiam ser como os pais dos meus amigos e se gostarem? — perguntou a menina, desolada com a situação da família. — Eu não gosto daqui, Nico. Eu odeio tudo isso.

— Pode acreditar, eu também não gosto — confessei, ouvindo o som de mais um copo sendo estraçalhado.

O som do estilhaço final pareceu cortar o pouco de ar que restava no quarto. O silêncio que se seguiu foi ainda pior que os gritos; era um silêncio carregado, denso, que antecedia a tempestade definitiva.

Vitória apertou os dedos na minha camiseta, escondendo o rosto no meu peito. Eu podia sentir o batimento acelerado do coração dela. Naquele momento, eu não era apenas um menino de dez anos; sentia o peso de carregar o que não era meu, tentando proteger o que restava da nossa inocência.

— Nico... — sussurrou ela, com a voz embargada. — Por que o papai do céu deixa isso acontecer?

Eu não soube o que responder.

Não entendia por que o "Todo-Poderoso", que os vizinhos tanto citavam em suas orações e rezas de domingo, permitia que tudo aquilo acontecesse. Não entrava na minha cabeça: se ele era alguém bom, por que existia a maldade?

A porta do quarto se abriu com um estrondo. Não era o monstro que temíamos, mas a nossa mãe. O rosto dela estava pálido, com um corte fino na bochecha, e os olhos carregavam uma exaustão que eu só viria a entender décadas depois. Ela não disse nada. Apenas entrou, sentou-se no chão ao nosso lado e nos puxou para um abraço.

Ficamos ali, os três amontoados, enquanto o choro silencioso dela se misturava ao tremor de Vitória. Naquele instante, fiz uma promessa a mim mesmo: eu tiraria a minha irmã daquele lugar. Encontraria um caminho onde não houvesse vidros no chão nem gritos que atravessassem paredes.

Anos se passaram, e aquela imagem nunca me deixou.

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Notas finais:

Espero que tenham gostado deste início. Por favor, comentem o que acharam! Eu passava muito tempo pensando em como retratar esta história, até que finalmente resolvi postá-la.

Abraços a todos. Até a próxima.

O Despertar Where stories live. Discover now