-> Lorena está de TPM, mas Eduarda sabe muito bem como lidar com ela
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O dia estava lindo.
Mas não mais lindo que Lorena. Não mais lindo que seus cabelos pretos espalhados pela capa de travesseiro de cetim, ou que a curva obtusa de suas maçãs do rosto.
Ela era sempre bonita, sempre.
A existência de Lorena trazia um acalento íntimo para Eduarda, que intensificava toda a vez que Lorena dormia em sua cama. Sua cama, porque quando Lorena estava dormindo na casa dela, em outro canto de São Paulo, acalento era tudo o que Eduarda não tinha.
Era por isso que Eduarda esperava tanto os finais de semana. Eles eram geralmente os momentos que ela não tinha trabalho na delegacia, pois ela arrumava a sua agenda e organizava seus plantões para ficar livre aos domingos, e assim, conseguia dar toda sua atenção para Lorena.
Eduarda era obcecada pela Lorena... pelo seu tom de voz, seus olhos, tudo nela era perfeito. Eduarda brincava - enquanto falava muitíssimo sério - que Lorena era anjo. Era o tipo de pessoa feita fora da terra, colocada aqui para conviver com pessoas orgânicas por motivos que extrapolam a mente de meras polícias civis como Eduarda.
Mas hoje, sua doce Lorena, seu anjinho, sua gatinha, tinha se transformado em uma onça, onça essa não mais pertencente ao Pantanal, mas sim ao mundo quente e torturante de Dante.
Eduarda tinha paciência. Muita paciência porque tinha muito amor. Assim era fácil respirar fundo todas as vezes que Lorena revirou os olhos quando Eduarda meramente abriu sua boca para falar algo.
Era fácil conter a raiva crescente quando se ama. Mas Eduarda pensaria que seria também fácil contar a petulância quando se ama alguém! Se ela seguisse a definição de amor por esses moldes, ficaria fácil de supor que Lorena não a amasse mais!
Mas Eduarda era mais forte que isso; ela tinha passado por inúmeras operações policiais, tinha preenchido zilhões de páginas de inquérito que, de alguma forma, eram piores que a sensação de adrenalina no talo que as operações geravam.
Mas ainda assim, talvez Eduarda não tivesse capacidade máxima para lidar com Lorena de TPM. Talvez paciência e amor não fossem o suficiente para amansar uma onça herdeira que cresceu tendo tudo que quer.
"Eu te prometo que a gente vai no restaurante árabe outro dia, meu amor," Eduarda disse, utilizando o apelido que usava continuamente com Lorena, mas que hoje saía diferente.
Talvez porque já fosse a terceira vez que repetia a mesma frase. Talvez porque Lorena estava com um bico enorme desde que acordou, e Eduarda tinha passado a manhã inteira tentando entender o que, exatamente, ela havia feito de errado.
"Mas eu queria ir hoje!" Lorena falou com a voz fina, suas bochechas avermelhadas da mais pura raiva. "Eu tô pedindo pra gente ir lá comer falafel faz três meses já! Aí, hoje que a gente pode, que você não tem plantão e eu não tenho aula à noite, o lugar está fechado!"
"Exatamente!" Eduarda falou, levantando-se do sofá e ficando de frente com Lorena. "O lugar está fechado. Por isso a gente não vai, não é porque eu não quero ou não posso ir."
Lorena revirou os olhos. O bico aumentou de um jeito que Eduarda achava anatomicamente impossível. E então, em questão de segundos, aconteceu o que ela mais temia: Lorena começou a chorar.
Seus olhos verdes encheram de lágrimas ao ponto de transbordarem em sutis gotas que escorriam pelas bochechas silenciosamente, e Eduarda sentiu o peito apertar de um jeito que ela conhecia bem. Era o mesmo aperto das operações que deram errado. O mesmo de quando ela ficava esperando notícia ruim.
