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Isabela Martinez 21 anos🎀

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Isabela Martinez
21 anos
🎀

Isa

Dizem que a memória é um bicho traiçoeiro, né? Às vezes ela te abraça com um cheiro de infância, já em outras ela te esfaqueia pelas costas com uma saudade que rasga o peito. Se eu fechar os olhos agora, ainda consigo sentir o cheiro do café coado da minha mãe, Maria, e ouvir as risadas altas do meu pai ecoando pela sala daquela nossa casinha simples, mas que transbordava vida. A gente era o tipo de família que o povo olhava e pensava: "ali o amor mora". Unidinhos, sabe? Mas o destino é um filho da puta que não pede licença pra chutar a porta e virar tua mesa de ponta-cabeça.

Tudo começou a desandar quando o meu velho, aquele que eu chamava de herói, decidiu que o suor do trabalho honesto não tava mais sendo o suficiente pra sustentar as ambições que começaram a brotar na cabeça dele. Ele começou a se envolver com uns papos tortos, umas saídas de madrugada que não tinham explicação e umas amizades que faziam minha mãe perder o sono. E do nada, sem um bilhete, sem um "foi bom enquanto durou", o cara simplesmente meteu o pé.
Abandonou eu, meu irmão e a mulher que deu a vida por ele no lixo, como se a gente fosse nada, como se fôssemos um fardo que ele cansou de carregar. O vazio que ele deixou no meu peito foi maior que a falta de dinheiro na dispensa.

Pouco tempo depois, veio o golpe de misericórdia: uma carta anônima, sem remetente, jogada por baixo da porta como se fosse um panfleto de mercado. O papel dizia, com letras frias e cruéis, que ele tinha falecido. Naquela época, o mundo desabou de vez. Minha mãe virou uma sombra do que era, uma mulher que chorava baixinho nos cantos pra gente não ver, e eu vi o brilho nos olhos do meu irmão se apagar pra dar lugar a uma revolta que me dava calafrios. A gente chorou um morto que nem corpo teve pra enterrar, um luto seco, sem despedida.

Minha mãe, Maria - uma mulher que merece o céu por tudo que aguentou - segurou o rojão sozinha. Ela se matava em três empregos, lavando roupa pra fora e fazendo faxina até as mãos sangrarem. Só que o meu irmão, vendo aquela situação, não aguentou o tranco. Sem a figura do pai, ele se sentiu o "homem da casa" antes da hora. A revolta dele virou ambição, e a ambição virou crime.

Ele entrou pro tráfico não porque queria ser bandido de filme, mas porque a fome é um bicho que ruge alto e não espera a boa vontade de ninguém. Ele queria colocar o pão na mesa, queria ver a coroa descansando, queria que eu tivesse um futuro.

Só que o crime é uma areia movediça: quanto mais tu tenta ajudar os teus, mais tu afunda.

Ele começou a ganhar nome, a se identificar com aquela vida de adrenalina, radinho na cintura e fuzil no peito. Um dia, ele mandou o papo reto: "Bel, tô indo pro Rio de Janeiro. Aqui no interior o bagulho tá pequeno pra mim". Ele foi com um amigo de infância, um moleque que era carne e unha com ele, e os dois partiram pro Complexo do Alemão pra tentar a sorte na hierarquia do morro. Nunca mais voltaram. Ficaram lá, se enterrando na gestão do tráfico, enquanto eu e minha mãe ficamos aqui, tentando sobreviver com a ausência deles.

Foi nesse caos, nesse deserto de afeto masculino, que eu encontrei o meu propósito.

No meio de tanta violência e abandono, eu olhava pras crianças da minha rua - molequinhos de nariz escorrendo que já nasciam com o destino traçado pelo descaso - e sentia um aperto no peito. Eu sempre tive um jeito especial com os pequenos. Eles me ouviam, eu sabia acalmar o choro deles como ninguém. Foi aí que a chama da enfermagem acendeu em mim. Mas não era qualquer enfermagem. Eu me apaixonei perdidamente pela pediatria. Eu queria ser a mão que cura, o abraço que conforta quem ainda nem aprendeu a se defender do mundo.

Enquanto meu irmão subia degrau no tráfico lá no Rio, eu subia degrau nos livros. Minha mãe, mesmo doente - porque o câncer já tava começando a dar os primeiros sinais, roubando a cor do rosto dela -, me incentivava com o que podia. "Estuda, Isabella. Seja alguém que ninguém possa pisar", ela dizia. E eu estudei. Estudei pra caralho. Varava noites à base de café barato, estudando anatomia, farmacologia e, principalmente, os cuidados específicos com os recém-nascidos e as crianças. Eu via naquelas vidas frágeis a esperança que tinha sido roubada da minha própria casa.

O dia da minha formatura foi o dia mais feliz e mais triste da minha vida. Eu lá, de beca, com o diploma de enfermeira pediatra na mão, vendo minha mãe numa cadeira de rodas, definhada pela doença, mas com um sorriso que parecia que ela tinha ganhado o mundo. Eu consegui. Eu era a enfermeira Isabella. Eu tinha o poder de cuidar, de salvar, de lutar por cada respiração de uma criança UTI. Mas a alegria durou pouco. Poucos meses depois de eu começar a trabalhar, a Dona Maria não aguentou. O câncer levou a última coisa que me mantinha sã.

Fiquei sozinha. A dor era tanta que eu achei que ia morrer junto. Foi quando a Dona Fátima, uma amiga de infância da minha mãe, me acolheu. Ela me deu um teto e me apresentou a Luna, a filha dela que virou minha irmã de alma no meio desse luto infernal. Eu tava trabalhando no hospital, cercada de crianças, tentando curar a dor dos outros enquanto a minha alma tava em carne viva. Eu amava minha profissão, amava o jaleco branco, amava o hospital... mas a solidão em casa era um barulho que não me deixava dormir.

Até que, numa madrugada qualquer, o telefone tocou. Era ele. O meu irmão. A voz dele tava diferente, carregada de um sotaque carioca pesado, cheia de gírias e um tom de autoridade que eu não conhecia.

- Bel? É o teu irmão, caralho. Eu soube da coroa... porra, Bel, me desculpa não ter estado aí. Mas agora o papo é outro. Tu tá sozinha, passando veneno? Não aceito isso. Arruma teus bagulho, pede as conta desse hospital aí e vem morar comigo no Alemão. Aqui tu vai ter tudo. Eu tô na gestão, porra! Ninguém encosta em ti. Tu é irmã do homem agora.

Eu hesitei. Porra, eu tinha minha carreira, minha formação, minha paixão pela pediatria... mas eu também tinha uma fome de família que tava me matando. Olhei pra Luna, olhei pro apartamento vazio que cheirava a remédio da minha mãe e tomei a decisão que ia mudar tudo. Eu ia pro Rio. Eu ia levar meu diploma, meu estetoscópio e meu coração de enfermeira pro meio da guerra.

Eu tava indo pra um lugar onde a vida vale um prato de comida e a morte é o vizinho do lado. Eu, a enfermeira que cuidava de vidas frágeis, tava entrando no ninho das feras. E o pior? Eu tava levando comigo o único pedaço de esperança que me restava: a vontade de cuidar de quem o mundo esqueceu, mesmo que isso significasse cuidar de quem vive no meio do crime.

A mala tava pronta. O diploma de pediatria tava guardado com carinho no fundo da bolsa. O Rio de Janeiro, com todo o seu caos e sua beleza cruel, tava me chamando. E eu, Isabella, tava pronta pra descobrir se o amor que eu tinha pelas crianças e pela cura seria o suficiente pra sobreviver num lugar onde a lei é o fuzil e o respeito é conquistado no sangue. O Alemão ia conhecer a enfermeira, mas eu ia conhecer o verdadeiro significado de sobrevivência.





















O acaso Tempat cerita menjadi hidup. Temukan sekarang