cores,giz e sobrenomes

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​O som do giz batendo no quadro negro era o metrônomo da vida de Will Byers.
​Nova York não era Hawkins. Não havia o silêncio opressor das florestas de Indiana ou o cheiro de ozônio antes de uma tempestade sobrenatural. Havia apenas o som constante de táxis lá fora e o burburinho de trinta crianças de cinco anos tentando não comer a cola colorida.
​Will limpou as mãos sujas de pó azul na calça de sarja e sorriu. Ele amava aquele caos.
​— Muito bem, pessoal! — Will elevou a voz, mas sem gritar. Ele tinha aquele jeito suave que fazia as crianças pararem para ouvir. — Olhem para cá.
​Trinta pares de olhos curiosos se voltaram para o homem magro, de expressão gentil, que agora se agachava para ficar na altura deles.
​— Hoje é o nosso primeiro dia. Eu sou o Sr. Byers. E esta... — Ele apontou para as mesas forradas com papel craft. — É a nossa zona de guerra artística. Mas antes de começarmos a pintar, eu preciso saber quem são meus novos artistas.
​Ele pegou a prancheta. Começou a andar entre as mesinhas baixas.
​— Você. Qual seu nome?
​— Leo. — O menino respondeu, escondendo o rosto atrás de uma lancheira do He-Man.
​— Bem-vindo, Leo. Gostei da lancheira. E você?
​— Sarah! — Uma menina de tranças deu um pulinho na cadeira.
​— Olá, Sarah. E o seu, pequeno?
​— Toby. Eu tenho um cachorro.
​Will riu, anotando na lista.
​— Isso é importante, Toby. Cachorros são ótimos modelos para desenhos.
​Will continuou circulando. Ele se sentia em casa ali. Desde que se mudara para Nova York, logo após a formatura em 89, as artes tinham sido seu refúgio e sua carreira. Ele raramente olhava para trás. As memórias de Hawkins eram como fotografias antigas: um pouco desbotadas, guardadas em uma caixa no fundo da mente.
​Ele não falava com Mike há anos. A vida aconteceu. Mike tinha ficado para trás, no subúrbio, e Will tinha mergulhado no asfalto da metrópole.
​— E você, aqui no fundo?
​Will parou diante de uma garotinha que estava sentada de forma muito ereta. Ela chamava a atenção. Tinha o cabelo longo, preto e cacheado, caindo em ondas sobre um suéter de tons pastéis — um contraste delicado com a calça jeans clara que ela usava.
​Mas foram as sardas no nariz e os olhos castanhos, atentos e inteligentes, que fizeram o coração de Will dar um solavanco estranho. Uma sensação de déjà vu o atingiu como um soco.
​— Oi — ele disse, a voz subitamente um pouco mais baixa. — Como você se chama?
​A menina sorriu. Era um sorriso confiante, quase desafiador.
​— Emily.
​— Só Emily? — Will brincou, tentando ignorar a estranha familiaridade naqueles olhos.
​— Emily Wheeler.
​O mundo pareceu parar por um segundo. Will sentiu o ar escapar dos pulmões. Ele piscou, segurando a prancheta com um pouco mais de força.
​— Wheeler? — Ele repetiu, a voz quase um sussurro.
​— É. Meu pai diz que é um nome de gente importante.
​Will engoliu em seco. Ele tentou manter o profissionalismo, mas a cabeça dele estava girando.
​— E... o que seu pai faz, Emily?
​— Ele escreve. — Ela respondeu, pegando um giz de cera azul. — Ele escreve livros de aventura. Ele diz que as melhores histórias vêm da imaginação, mas que às vezes a realidade é mais estranha.
​Will sentiu um calafrio percorrer sua espinha.
​— Ele escreve em casa? — Will perguntou, a curiosidade vencendo a prudência.
​— Sim. A gente se mudou para cá faz pouquinho tempo. — Ela começou a desenhar um círculo no papel. — Ele disse que Nova York é melhor para quem quer contar histórias.
​Will ficou em silêncio por um longo tempo, observando a menina desenhar. A maneira como ela segurava o giz, a inclinação da cabeça... era como olhar para uma versão em miniatura de alguém que ele conhecia melhor do que a si mesmo.
​— Sr. Byers? — Emily chamou, olhando para cima.
​— Sim?
​— Você tá bem? Você ficou branco.
​Will forçou um sorriso, embora suas mãos estivessem tremendo levemente sob a prancheta.
​— Estou bem, Emily. Só... lembrei de um velho amigo.
​— Ele também era artista?
​Will olhou para o desenho dela e depois para a janela, onde os prédios de Nova York pareciam subitamente menores diante daquela revelação.
​— Ele era o melhor contador de histórias que eu já conheci.
​Will se levantou, as pernas um pouco bambas. Ele olhou para a porta da sala de aula, sabendo que, às três da tarde, os pais estariam ali para buscar as crianças.
​Mike Wheeler estava em Nova York.
E Mike Wheeler tinha uma filha.
​— Certo, turma! — Will disse, tentando recuperar o tom de voz normal. — Vamos começar com as cores primárias. Quem sabe me dizer qual é a cor do fogo?
​Enquanto as crianças gritavam "Vermelho!" e "Laranja!", Will Byers só conseguia pensar em uma coisa: o que ele diria quando o relógio batesse as três?

O Nome Que Eu Nunca Esqueci Des histoires addictives. Découvrez maintenant