Capítulo 1: O Legado de Amélia
Escrevo estas linhas sob o pálido luar que banha meu ateliê em Grasse, onde o odor das flores destiladas me transporta para um passado de sombras e sedas. Minhas mãos, outrora trêmulas ao receber a notícia daquela partida precoce, hoje buscam, na precisão da alquimia, capturar a essência da mulher que a vida transformou em irmã. Criar uma fragrância não é apenas misturar óleos; é aprisionar o tempo em um frasco de cristal para que a memória não se perca no esquecimento.
Hellennah Bourbon não foi apenas um nome em uma linhagem marcada pelo infortúnio; ela foi a melodia que ecoou pelas colinas quando o destino ainda tecia nossa teia. Ouvi, por anos, os relatos sobre a jovem de dezessete anos que, em 1817, sentou-se ao piano para tocar a Moonlight Sonata, transformando notas em lamentos por uma liberdade desconhecida. Ela possuía uma alma que o mundo, com seus doces e veludos, jamais conseguiu curar.
A tragédia, contudo, é uma sentinela que nunca dorme em Provence, e a história que desejo narrar aqui é o testamento espiritual daquela que escolheu a eternidade. Reúno agora as páginas de diários que sobreviveram ao fogo, às lágrimas e ao silêncio das figueiras, para que o leitor possa compreender a profundidade do amor que ela e Alfred construíram. Prepare-se para mergulhar nas águas prateadas onde o cisne repousou, longe das feridas da carne.
Que estas páginas sirvam como um bálsamo para as almas que, como a de Hellennah, sentem o peso de amar em um mundo proibido. Ao borrifar o perfume que batizei de Saudades, convido você a fechar os olhos e ouvir, no eco do piano, a história da mulher que se fundiu à terra para que outras rosas pudessem florescer. Esta é a crônica de um amor que a morte, em sua frieza, não conseguiu sufocar.
Capítulo 2: O Desabafo de Hellennah (1814)
🌹 O Diário de Hellennah Bourbon: Memórias de Grasse
Hoje completo quatorze anos, mas não há velas ou celebrações. O ar da mansão está impregnado com o cheiro de metal e morte. Minha mãe, minha doce Valentine, partiu no exato momento em que Amélia deu seu primeiro suspiro. Sinto-me consumida pela loucura; o luto é um monstro que devora minhas entranhas. Às vezes, penso que a morte seria um refúgio melhor do que carregar o peso amaldiçoado deste brasão de Bourbon.
Hoje, fugi. Caminhei pela floresta até que meus pés sangrassem, desejando apenas me perder. Foi quando o vi: um lago escondido, banhado por uma lua cheia pálida que transformava a água em prata líquida. Cisnes deslizavam em silêncio, como almas em paz. Naquele instante, o caos em meu peito silenciou. Aquele será meu refúgio.
Devo encontrar em mim a fortaleza necessária para proteger Amélia, pois ela é a única fração de pureza em meio a este ninho de víboras. O destino, contudo, é cruel com aqueles que carregam nomes ilustres; a propriedade está ressequida, os campos de oliveiras morrem, e meu pai afoga-se em licores e amarguras. Observo as rosas no jardim e questiono se, em meio à negligência de Grasse, elas não seriam o legado que devo preservar.
A melancolia me persegue como uma sombra, mas há algo no desabrochar das pétalas que me sussurra uma verdade antiga: a beleza insiste em brotar mesmo onde o solo parece exaurido. Sinto que meu tempo aqui é breve, um suspiro interrompido pela hipocrisia de um patriarcado que me vê como moeda de troca. Ainda assim, enquanto o piano me permitir gritar sem abrir a boca, manterei minha dignidade intacta.
Primavera de 1820
Os anos passaram como sombras. Marcella, minha única irmã em quem eu realmente confiava, casou-se e partiu. Camille também se casou. Agora, restamos eu, a amargurada Giovana, a pequena Amélia e nosso pai. Clément Bourbon é hoje um homem que se afoga em licor, amaldiçoando a memória de Valentine por não ter lhe dado um herdeiro homem. Ele despeja o veneno de sua frustração em cada palavra. Amélia é minha única força; por ela, suporto o hálito de álcool e os gritos que ecoam pelos corredores da mansão.
Se não fosse por Germana, minha melhor amiga, e pelas notas do piano que me permitem gritar sem abrir a boca, eu estaria perdida. Quando a saudade de minha mãe se torna insuportável, corro para o lago dos cisnes. Aperto contra o peito o medalhão de prata que ela me deu - aquele relicário redondo, gravado com flores. Ali, tive uma epifania: a terra das oliveiras está morta, ressequida pela negligência, mas as rosas... as rosas podem florescer. Grasse é a capital do perfume desde 1600; por que não continuar esse legado?
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A lenda do Cisne de Côte d'Azur
FantasyNarrado através de diários confessionais que atravessam décadas, O Cisne de Côte d'Azur é uma crônica gótica e romântica sobre a fragilidade da vida e a imortalidade do afeto. Entre o aroma do jasmim e o veneno da traição, a história de Hellennah e...
