O som das pessoas conversando era irritante aos meus ouvidos, ainda que eu tentasse disfarçar ao máximo com sorrisos ensaiados e palavras educadas. Era uma sexta-feira, cinco da tarde, horário em que boa parte da população do centro de Curitiba decidia, por algum motivo obscuro, que o melhor jeito de encerrar a semana era lotando uma cafeteria. Eu até entenderia se estivessem indo para um bar ou uma balada, mas escolher o cheiro de pó de café e doces frescos em vez de uma cerveja gelada ainda era um mistério para mim — mesmo trabalhando ali há três anos.
Enquanto preparava um latte para uma senhora cujos óculos escuros a faziam parecer um grande besouro, observei pela vidraça que o céu já começava a fechar. A mutabilidade do tempo curitibano era algo a que eu já devia ter me acostumado, mas ainda era frustrante, especialmente quando seu gato faz o favor de rasgar seu único guarda-chuva e você percebe que a chance de chegar em casa parecendo um rato molhado é de 90%.
— Eu pedi com caramelo e isso aqui claramente não tem caramelo! — a senhora gritou comigo poucos minutos após receber o café, mantendo os óculos escuros mesmo em um ambiente fechado.
Eu a observei por alguns segundos. Os cabelos tingidos de um vermelho vibrante revelavam raízes prateadas, o rosto repuxado entregava as inúmeras plásticas e a roupa de academia parecia ter saído diretamente de uma sitcom dos anos setenta. Para completar, o cachorrinho sob o braço parecia tão perdido quanto o dono original daquelas feições.
— Sinto muito, Dona Regina. Vou preparar outro agora mesmo — respondi com uma polidez impecável e uma ponta de falso arrependimento.
Assim que dei as costas, porém, deixei minha máscara de simpatia cair, dando lugar a uma careta de pura frustração. — Ela sempre reclama de algo, mesmo quando fazemos exatamente o que ela pede — Davi, meu colega recém-contratado, comentou em tom baixo enquanto organizava os brownies na vitrine.
— Ela é assim: uma velha amargurada que não tem nada melhor para fazer e prefere gastar a aposentadoria infernizando quem é obrigado a trabalhar — resmunguei, já pegando a calda de caramelo com mais força do que o necessário. Não fiz alteração alguma no café; apenas enrolei o tempo, fingindo preparar uma nova bebida, até finalmente entregá-la.
— Aqui está, Dona Regina. Refiz com caramelo e adicionei um pouco extra como pedido de desculpas — eu disse, ostentando meu melhor sorriso doce. Era aquele tipo de expressão que eu sabia que fazia qualquer pessoa, por mais irritada que estivesse, se derreter.
— Tudo bem, meu filho... Obrigada pelo latte — ela respondeu, agora em um tom mais educado. Ela vasculhou a bolsa verde-neon e tirou o valor do café acompanhado de uma nota de vinte reais. Entregou-me o dinheiro de forma sorrateira, como se estivesse me passando drogas.
— Aqui, é para você. Nem posso imaginar como deve ser difícil trabalhar em um local assim para sobreviver... Tenho tanto dó de gente como você — concluiu com um sorriso de falsa simpatia, antes de se afastar. Eu e Davi permanecemos estáticos, trocando olhares perplexos enquanto a observávamos sair. Segundos após Dona Regina atravessar a porta, o céu desabou em uma chuva torrencial. O som da água atingindo o vidro fez um sorriso genuinamente vingativo surgir em meus lábios.
— Bem-feito, velha filha da puta — murmurei para mim mesmo, assistindo de camarote à cena dela sendo pega de surpresa pelo temporal. Era uma visão quase artística: a cliente correndo desesperada enquanto tentava usar o próprio cachorrinho como um escudo improvisado contra a chuva.
A chuva continuou enquanto eu retornava ao trabalho, preparando mais cafés, servindo doces e tentando manter o ritmo. Vez ou outra eu conversava com os clientes ou com os demais funcionários; era o básico do dia a dia, já que a cafeteria prezava por esse atendimento "humano". Mas, por dentro, eu só conseguia pensar no comentário dela. Dó. Era assim que o mundo me via? Como alguém quebrado que precisava de esmolas?
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Beleza Verdadeira
RomanceIsaac é mestre em duas coisas: fazer o café perfeito e se autoinsultar antes que qualquer outra pessoa o faça. Convencido de que seu corpo é um erro e que o amor é um privilégio para pessoas magras e seguras, ele vive escondido sob camadas de roupas...
