Entre Névoas e Lembranças Cálidas.

14 2 0
                                        


A Alcateia Perdida.

⤗ ☾ ⤗

Capítulo 1: Entre Névoas e Lembranças Cálidas.

Okoesham, Ukraine – Bokuvel — 21:21. Quarta-feira.

A noite silenciosa sussurra o vento no meu rosto, trazendo consigo histórias antigas da Floresta Sombria, enquanto estou apoiada sobre o batente da minha janela da sala de estar. Meus olhos pairam sobre as névoas do Lago Nyzxaria, sob o céu estrelado de Okoesham. Pinheiros altos e majestosos, cobertos de branco, parecem guardar a beira do lago, como seus sentinelas. Observo as poucas folhas largas alaranjadas que se despedem silenciosamente conforme a neve avança com o seu manto brilhante, transformando a vila em um conto de fadas gélido. Confesso, uma profunda tristeza me envolve. Ao contemplar o manto cintilante, percebo que terei que esperar até o próximo ano para testemunhar novamente essa maravilha da natureza na sua plenitude, quando a primavera finalmente chegar. Enquanto isso, o farfalhar suave das folhas dos pinheiros preenche o ar com o frescor do pinho, e as sombras dos galhos dançam na parede pedregosa da minha casa. A antecipação se mistura à minha espera, criando uma melodia sutil que ecoa pela sala.

De longe, as Montanhas Nebulosas de Cain erguem-se como gigantes adormecidas. O vento congelante desce por suas rochas, serpenteando pelos vales estreitos até alcançar nossa pequena vila, fazendo com que todos procurem maneiras de se aquecer. Felizmente, é dezembro, e ao cair da noite, após quatro anos, celebraremos o grande Rito da Noite Crepuscular e a ida dos anciões aos pés de Caim, o Deus que protege as montanhas. A lenda que ronda esta noite, diz sobre os espíritos de pessoas da vila que se perderam na Floresta Sombria ou que tiveram mortes violentas ou aqueles que não puderam descansar devidamente em vida.

Nesta noite, os moradores irão se reunir na Praça Estelar em torno de quatro grandes fogueiras para auxiliar os espíritos a fazerem uma passagem pacífica para o céu, através do grande espírito do fogo. Durante o dia todo, as pessoas estão de um lado para o outro rindo em conversas animadas. Homens carregam troncos para a Praça, enquanto que as crianças colaboram levando galhos e outras decorações.

Todos ajudam no evento. As mulheres e os mais jovens homens da vila cozinham e arrumam juntos alguns enfeites de Yule, assim tudo fica pronto antes da meia noite. Eu, como de costume, irei levar uma cesta de pães fofinhos caseiros e pão de mel lunar. Ele é repleto de especiarias, como canela, gengibre, cravo e noz-moscada, coberto por uma generosa camada de glacê ou chocolate.

Esta será minha sétima participação. Sempre venho à memória de meus pais, trazendo velas banhadas em azeite, ramos de alecrim, doces trufados e cristais que simbolizam fogo e proteção, como o olho de tigre e a turmalina negra. Me sento ao pé da fogueira, admirando o seu clarão, e penso neles com carinho mesmo não sabendo como são seus rostos. Não consigo parar de imaginar se fui amada por eles ou se ficaram felizes quando nasci, ou o que aconteceu com eles.

O Sr. Cornell, meu amável vizinho que tenho como um pai, foi quem cuidou de mim quando me deixaram na vila em um cesto de pães coberta cuidadosamente por cobertores quentinhos. Toda vez que eu perguntava ao Sr. Cornell, se ele achava que fui amada por meus pais, ele me contava novamente como eu cheguei. Tão embrulhada que mal conseguia ver meu rosto, apenas o narizinho vermelho pelo frio intenso. É triste, e reconfortante ao mesmo tempo. Uma forma de conseguir alguma esperança de amparo em meio às dúvidas. Ele conta que uma carta foi deixada secretamente debaixo de mim com dinheiro o suficiente para ajudar nas minhas despesas de criança, e com os gastos de adulta. Uma escolha arriscada, eu considero. A vila é bonita e harmônica na maioria dos dias, mas tem os seus larápios.

A ALCATEIA PERDIDAWhere stories live. Discover now