O silêncio das mentiras

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O silêncio de Chicago às três da manhã é o som de um mundo em espera. Da janela do nosso vigésimo andar, as luzes da cidade parecem um mar de diamantes caídos sobre o asfalto. Eu deveria estar dormindo o "sono da beleza", como minha mãe brincou no jantar de ensaio, mas meu coração está em uma rotação diferente.

Rolei na cama, sentindo o toque do lençol de seda egípcia contra a pele. Ao meu lado, Jason respirava de forma pesada e rítmica. Estendi a mão no escuro, roçando as pontas dos dedos em seu ombro, apenas para sentir o calor do homem que, em poucas horas, se tornaria meu marido.

Eu o amo. Amo o jeito como ele toma café lendo o jornal físico, amo a segurança que ele me passa e, principalmente, amo o futuro que construímos juntos, tijolo por tijolo, nos últimos três anos. Amanhã — ou melhor, hoje — seria o ápice de tudo. O dia em que eu finalmente me tornaria a Sra. Miller.

Senti a garganta seca, uma sede que nenhuma água parecia capaz de saciar. Levantei-me em silêncio, cuidando para não despertar Jason. Caminhei descalça pelo corredor, meus olhos se acostumando à penumbra do apartamento que cheirava a lírios brancos e promessas.

Na cozinha, o brilho azulado de um celular sobre o balcão de mármore cortou a escuridão. O aparelho de Jason.

Eu nunca fui a mulher que vasculha. Sempre tive pavor de cenas de ciúmes ou de desconfianças infundadas. Nosso relacionamento era baseado na transparência... ou era o que eu dizia a mim mesma. Mas algo naquela madrugada, um sexto sentido visceral, agarrou meu estômago e torceu.

Não seja boba, Lucy. É o nervosismo do altar, pensei, enquanto minha mão agia por conta própria.

Peguei o celular. A senha era a data em que ele me pediu em namoro. Sorri por um segundo, sentindo uma pontada de culpa.

Ele é um homem maravilhoso, eu disse mentalmente. Por que estou fazendo isso?
Entrei nas mensagens de texto. Nada. Apenas grupos de amigos e confirmações de fornecedores. Respirei aliviada, pronta para guardar o aparelho e voltar para os braços dele. Mas, por um impulso que não sei explicar, abri o aplicativo de e-mail.

Jason raramente usava aquela conta para algo que não fosse trabalho. No topo da caixa de entrada, uma mensagem não lida de Anna — a assistente de Jason — saltou aos meus olhos. O assunto era curto: "Mesmo assim".

Meus dedos gelaram. Li a primeira linha e senti o mundo inclinar sob meus pés.

"Eu sei que amanhã você sobe naquele altar. Eu sei que o contrato social exige que você coloque aquela aliança no dedo dela. Mas, Jason, lembre-se do que dissemos ontem. Mesmo casando com ela, eu amo você. É o meu nome que você vai procurar entre os convidados. Eu estarei lá, na terceira fileira, vestindo o que você gosta."

O ar fugiu dos meus pulmões. Olhei para o corredor, esperando que Jason aparecesse e dissesse que era uma brincadeira cruel, um erro, qualquer coisa. Mas o silêncio continuava. Meus olhos desceram para a resposta dele, enviada enquanto eu tomava banho e cantava músicas românticas, feliz da vida.

"Não importa o que aconteça amanhã, o que temos é único. Casar com ela é o que eu preciso fazer agora, a pressão da família e os negócios exigem isso, mas é em você que eu penso. Te vejo na igreja. Não use aquele perfume, ou não garantirei minha sobriedade diante do padre. Eu também amo você, Anna."

"Eu também amo você".

Aquelas quatro palavras rasgaram meu peito com mais força do que qualquer faca. Eu não era a mulher da vida dele. Eu era o "passo necessário". Eu era um contrato, uma conveniência social.

Um bebê fora dos planos  Stories to obsess over. Discover now