Chegada

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O pátio da faculdade estava movimentado naquela manhã. Grupos de alunos ocupavam os bancos espalhados pelo jardim, alguns revisando anotações, outros apenas conversando antes das aulas começarem.
Sentada em um banco perto das árvores, Luiza mantinha um caderno aberto no colo enquanto observava algumas anotações.
Ao lado dela, Carol inclinava-se para tentar entender a bagunça organizada de tópicos escritos ali.
— Eu continuo achando que esse professor exagerou — disse Carol. — É trabalho demais pra primeira semana.
Duda, sentada do outro lado, tomou um gole do café e concordou.
— Três artigos, análise jurídica e ainda uma apresentação em grupo. Nem deu tempo de entender a matéria direito.
Luiza deu um pequeno sorriso.
— Se a gente dividir bem, dá pra fazer. Não precisa entrar em pânico ainda.
— Claro que você fala isso — Carol respondeu. — Você provavelmente já leu metade da bibliografia.
— Nem comecei — disse Luiza, levantando as mãos em defesa.
Antes que a conversa continuasse, um barulho alto de motor ecoou pelo pátio.
Um ronco forte, chamando a atenção de vários alunos.
Outro veio logo em seguida, ainda mais alto.
Duda franziu a testa.
— Que isso?
Luiza levantou o olhar.
Perto da entrada da faculdade, duas motos acabavam de parar.
Quem desceu primeiro foi Valentina.
Ela tirou o capacete com um movimento rápido, passando a mão pelos cabelos bagunçados pelo vento. A jaqueta preta ainda estava fechada, e ela parecia completamente confortável com os olhares curiosos ao redor.
Atrás dela vinha Maia, rindo enquanto tirava o próprio capacete.
— Eu falei que você exagerou — disse Maia.
Valentina sorriu de canto.
— Eu só cheguei.
Logo depois apareceram Igor e Roger, ainda conversando e rindo de alguma coisa.
O grupo caminhou pelo pátio com uma energia diferente da maioria dos estudantes — mais barulhenta, mais despreocupada.
Carol reconheceu primeiro.
— Claro… tinha que ser a Valentina.
— Você conhece? — perguntou Duda.
— Meio que todo mundo conhece — respondeu Carol.
Luiza observou o grupo por um instante.
Como se sentisse o olhar, Valentina virou a cabeça na direção delas.
Os olhos das duas se encontraram por um segundo.
Luiza desviou primeiro, voltando para o caderno.
— Enfim — disse Duda — vamos decidir quem pega qual parte do trabalho.
Mas Luiza já não parecia tão concentrada nas anotações.
Pouco tempo depois, os alunos começaram a entrar nas salas.
A sala já estava quase cheia quando o professor iniciou a aula.
— Muito bem, pessoal — disse ele, organizando alguns papéis sobre a mesa. — Como eu mencionei na última aula, essa disciplina vai exigir bastante leitura.
Luiza, Carol e Duda estavam sentadas no meio da sala.
O caderno de Luiza já estava aberto novamente.
— Teremos alguns trabalhos ao longo do semestre — continuou o professor. — O primeiro será uma análise sobre substitutologia jurídica, que vocês desenvolverão em grupo…
A porta da sala se abriu de repente.
O barulho interrompeu a explicação.
Alguns alunos se viraram imediatamente.
Na porta estavam Valentina, Maia, Igor e Roger.
Valentina entrou primeiro, ainda segurando o capacete na mão, como se não estivesse interrompendo uma aula inteira.
Maia vinha atrás, rindo.
— Que bom que decidiram aparecer — disse o professor, cruzando os braços.
Valentina deu de ombros.
— A gente tava ali fora.
Roger riu.
— Conversando.
O professor apenas suspirou.
— Entrem e sentem.
O grupo começou a caminhar entre as fileiras de cadeiras.
Luiza levantou os olhos do caderno por um instante.
Sem pensar muito, comentou em voz baixa:
— Impressionante.
Valentina ouviu.
Ela parou no meio do caminho e virou lentamente na direção de Luiza.
— Impressionante o quê?
Alguns alunos começaram a prestar atenção.
Luiza levantou o olhar.
— Nada.
Valentina cruzou os braços.
— Não… agora fala.
A sala ficou mais silenciosa.
Luiza fechou o caderno devagar.
— Só achei curioso alguém entrar na aula como se fosse um show.
Algumas risadas surgiram pela sala.
Valentina arqueou uma sobrancelha.
— E você deve ser quem? A fiscal da faculdade?
Mais algumas risadas.
Maia já estava claramente se divertindo.
Luiza manteve o tom calmo.
— Só alguém que chegou no horário.
Valentina soltou uma pequena risada.
— Parabéns pra você.
Igor murmurou algo para Roger, que riu.
Valentina finalmente se sentou algumas cadeiras atrás de Luiza.
— Relaxa, certinha — disse ela. — A vida fica mais leve quando a gente não leva tudo tão a sério.
Alguns alunos riram novamente.
Luiza apertou a caneta entre os dedos, mas não respondeu.
— Já acabou o espetáculo? — interrompeu o professor.
O silêncio voltou à sala.
— Ótimo — continuou ele. — Então vamos continuar.
Valentina se recostou na cadeira, olhando para a frente.
Ou melhor… olhando para Luiza.
Na frente, Luiza voltou a encarar o caderno.
Mas dessa vez demorou alguns segundos antes de começar a escrever novamente.
E mesmo sem se virar, ela sabia exatamente quem estava sentada atrás dela.

Antes que a Luz se ApagueHistórias para pegar e não largar. Descubra agora