Sexta feira, 24 de fevereiro de 2017
A homilia havia acabado e ele nem percebeu.
As palavras do padre foram ditas com clareza, gentileza, e até alguma esperança. Mas Naruto não as ouviu. Ficaram no ar, dissolvidas como fumaça de incenso.
Na verdade, desde que se sentou naquele banco, quase no fundo da capela, algo parecia fora do lugar. As luzes mornas, os cânticos, os fiéis em silêncio — tudo lhe era familiar e, ao mesmo tempo, completamente estranho. Eram seis meses sem pisar numa igreja. Seis meses fugindo, mesmo que ninguém o perseguisse. Seis meses tentando calar a própria consciência — e falhando.
Levantaram-se para as orações da comunidade. Naruto ficou sentado. Era como se os joelhos tivessem esquecido como reagir. As vozes se revezavam em súplicas pelos doentes, pelas famílias, pelos jovens... Mas ele não ouvia. O sangue batia nas têmporas, o peito estava abafado. Não era nervoso — era outra coisa. Algo mais profundo, mais antigo. Algo que ele tinha enterrado e que agora acordava.
Foi quando começou o canto de ofertório, “Estar em suas mãos”, da Comunidade católica Shalom.
A melodia era familiar. Aquela música tinha sido cantada inúmeras vezes com o grupo de jovens. Era símbolo de entrega, de confiança. Mas, naquele momento, soava como ironia. Uma lembrança cruel do que ele já foi e não era mais.
Bem que gostaria de “ter as mãos na Terra e o coração além do céu” “ou a cada dia crescer e aprender a recomeçar,” como dizia aquela letra, mas música por música, outra ecoava dentro de si, nada religiosa.
“Tearing me apart with the words you wouldn't say…”
“And suddenly tomorrow’s a moment washed away…”
Definitivamente nem deveria estar pensando em música “do mundo” em plena missa. Mas a ouvia inteira, dentro de si, como se a culpa tivesse melodia. Como se cada estrofe de “Final Masquerade" falasse diretamente de tudo que ele fingiu que não via até ser tarde demais.
“We said it was forever, but then it slipped away…”
Lembrou da época em que dizia isso mesmo: que nada ia separar os dois. Lembrou das promessas, dos sonhos, das noites que pareciam eternas. Mas também lembrou — um por um — de cada erro. Cada vez que virou as costas. Cada desculpa. Cada escolha errada. Até tudo acabar da forma que acabou. E agora ali estava ele. Na missa. No fundo da igreja. Cheio de culpa e sem coragem de sair.
Os últimos dez meses haviam sido um deserto — não um deserto de provação, como se dizia nos retiros, mas de fuga. Uma fuga ativa, dura, da própria fé. Era mais fácil não pensar. Mais fácil se ocupar, dormir tarde, não rezar. Mas agora, sentado ali, com a letra batendo contra o peito como uma batida mal fechada, não dava mais para escapar.
E então, sem querer, sua mente o traiu.
Uma lembrança nítida, viva, invadiu seus sentidos. Era o rosto de Sasuke. O último momento. O silêncio entre os dois, o que foi dito tarde demais, o que ficou entalado. Era a sensação de fracasso puro. O que ele não viu. O que poderia ter impedido. O que ignorou.
Enquanto os adolescentes levavam o pão e o vinho até o altar, o loirinho continuava imóvel. A cada passo dos jovens no corredor central, ele sentia o peito apertar. A atmosfera que tomava a capela — de reverência e entrega — só aumentava o contraste com o que ele carregava dentro de si. O que deveria ser consolo se tornava incômodo. Era como estar nu em meio a uma multidão. Desmascarado.
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Somewhere I belong
Fanfiction"A pior parte do fim é recomeçar." Principalmente quando você precisa encarar não só a ausência de quem partiu, mas tudo o que você deixou de fazer enquanto ele ainda estava aqui. Naruto aprendeu isso da forma mais brutal. Desde a morte de Sasuke, n...
