Capítulo 2 - O Silêncio Que Ficou

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Depois que você foi embora, o silêncio mudou de forma.
Antes, ele era descanso. Agora, é peso.
Ele se espalha pela casa, senta ao meu lado, deita comigo na cama e me observa pensar em você como se ainda tivesse algum direito sobre mim.

Eu nunca soube lidar bem com o silêncio.
Talvez porque ele fale demais quando a gente está sozinho.
Talvez porque nele cabem todas as coisas que não foram ditas, todas as respostas que nunca chegaram, todos os sentimentos que ficaram sem endereço.

Eu acordo e, por alguns segundos, esqueço.
Esqueço que você não está mais aqui.
Esqueço que não existe mais "nós".
Mas logo a realidade me alcança, como sempre faz, e me lembra que algumas ausências não dão trégua nem pela manhã.

O pior não foi você ir.
Foi perceber que o mundo continuou andando como se nada tivesse acontecido, enquanto tudo em mim parou. As pessoas falam, riem, seguem seus dias, e eu fico preso em um tempo que só existe dentro do meu peito.

Eu tentei me distrair.
Tentei ocupar os espaços que você deixou.
Mas existem vazios que não aceitam substituição.
Eles só existem pra serem sentidos.

Às vezes, me pego relendo conversas antigas, não porque espero algo novo, mas porque ali você ainda responde. Ali você ainda se importa. Ali eu ainda não perdi. E mesmo sabendo que isso machuca, é difícil largar a única versão de nós que não acabou.

Eu me pergunto se você sente falta.
Não do jeito que eu sinto, porque isso já entendi que não.
Mas se em algum momento, mesmo que breve, você lembra de mim e sente um aperto pequeno, quase imperceptível, que logo passa. Eu me pergunto se, por um segundo, eu ainda importo.

O silêncio me ensinou coisas que eu não queria aprender.
Me ensinou que quem ama mais, fica.
Que quem sente menos, vai.
E que às vezes a gente não perde porque não foi suficiente, mas porque o outro já tinha decidido ir embora antes mesmo de dizer adeus.

Eu comecei a falar menos depois de você.
Não porque não tenho o que dizer, mas porque cansei de explicar dores que ninguém vê. Algumas tristezas não querem companhia, só querem existir em paz dentro da gente.

Se você que lê já se sentiu assim, sabe como é.
Sabe como é deitar e esperar o sono chegar só pra não pensar.
Sabe como é acordar cansado de sentir.
Sabe como é carregar alguém no coração que já não te carrega mais.

Esse capítulo não é sobre você.
É sobre o que ficou de mim depois que você foi.
Sobre o silêncio que aprendeu meu nome.
Sobre a saudade que virou rotina.
Sobre o amor que não morreu, mas também não sabe mais onde viver.

E talvez seja isso que mais doa:
continuar sentindo
quando tudo já acabou.

A Pior Parte do AmorWhere stories live. Discover now