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A noite estava silenciosa demais.

Michikatsu limpou a lâmina lentamente, sentado à beira do pequeno riacho que cortava a floresta. A lua se refletia na água como um espelho prateado, e por um momento ele permitiu que seus pensamentos vagassem para seu irmão, para o caminho que escolheu, para a sensação incômoda de que algo sempre faltava.

O som de galhos se partindo o tirou do devaneio.

Seus dedos fecharam-se instantaneamente sobre o cabo da espada. Ele não precisou olhar para saber. A presença era familiar demais, aquele cheiro de putrefação, aquele arrepio na nuca.

Um demônio.

Michikatsu levantou-se com a graça calculada de quem passou anos aperfeiçoando cada movimento. Seus olhos percorreram a clareira até encontrarem a criatura, um demônio de aparência grotesca, com quatro braços e uma boca que se abria horizontalmente como uma ferida aberta.

— Um samurai... — a voz do demônio era úmida, viscosa. — Faz tempo que não como um guerreiro.

Michikatsu não respondeu. Não havia necessidade. Sua lâmina já estava em posição, seus pés encontraram o terreno firme, sua mente silenciou como fazia antes de cada batalha.

O demônio atacou primeiro.

Michikatsu esquivou-se com um giro, sua espada cortando o ar num movimento fluido. A lâmina encontrou carne, mas não o suficiente o demônio já havia recuado, rindo com aquela boca horrível.

— Rápido — a criatura reconheceu, quase com admiração. — Mas não rápido o suficiente.

O próximo ataque veio de dois lados ao mesmo tempo. Michikatsu bloqueou um braço, desviou do outro, mas o terceiro o pegou desprevenido garras rasgando seu ombro, lançando-o para trás. Ele rolou no chão, sentindo o sangue quente escorrer pelo braço, e levantou-se a tempo de ver o quarto braço vindo em direção ao seu rosto.

Não haveria tempo para esquivar.

Então algo pequeno e marrom-acinzentado voou direto na cara do demônio.

— 𝘗𝘪𝘱, 𝘯𝘢̃𝘰! — uma voz jovem ecoou na clareira, em uma língua que Michikatsu não reconheceu completamente, mas que soava estranhamente familiar em algumas palavras.

O demônio grunhiu, confuso, tentando afastar a criatura que agora lhe arranhava os olhos. Era pequena um esquilo? mas ágil, movendo-se como se tivesse asas.

Antes que Michikatsu pudesse processar o que estava acontecendo, uma figura surgiu da escuridão como se tivesse sido projetada por uma mola.

Ela era pequena surpreendentemente pequena e vestia roupas que ele nunca tinha visto. Uma espécie de traje curioso que deixava seus braços completamente expostos e terminava em uma saia incrivelmente curta, revelando pernas que se moviam com uma agilidade impressionante. Seus cabelos escuros, cortados acima dos ombros, balançavam enquanto ela corria, e havia algo no movimento dela que lembrava mais um animal do que um humano flexível, graciosa, impossivelmente rápida.

— 𝘊𝘶𝘪𝘥𝘢𝘥𝘰! — ela gritou, e desta vez ele entendeu as palavras, mesmo com o sotaque estranho. — Ele tem quatro braços!

Michikatsu abriu a boca para dizer algo para alertá-la, para mandá-la fugir mas ela já estava em movimento novamente.

A menina, porque era uma menina, ele percebeu agora, com rosto de traços delicados e jovens saltou sobre um tronco caído como se fosse um simples degrau, seus pés encontrando impulso na madeira podre para lançá-la diretamente na direção do demônio. No ar, seu corpo curvou-se numa flexão impossível, desviando por centímetros de um dos braços da criatura, e quando ela caiu, foi em posição de corredora, mãos no chão, pronta para o próximo movimento.

MERDA . . . ᵏⁿʸHistórias para pegar e não largar. Descubra agora