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ONDE TUDO COMEÇOU

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Sabrina Viana chegou aos Estados Unidos em 2024 carregando pouco na mala, mas muito no coração. Como imigrante brasileira e cadeirante, cada calçada era um desafio, mas ela estava decidida a construir uma vida. Foi no balcão de um bar simples, onde fazia bicos para se sustentar, que ela conheceu Austin Leal.
Naquela época, Austin era apenas um cantor de bar com sonhos grandes e um sorriso que parecia sincero. Sabrina o achava lindo, mas mantinha os pés no chão; não achava que um artista em ascensão olharia para ela. Mas, após um ano de trocas de olhares, ele finalmente se aproximou. "Você é a mulher mais bonita desse lugar", ele disse, convidando-a para sair. O início foi um conto de fadas, daqueles que fazem a gente esquecer que o mundo lá fora é cruel.

O tempo passou e as sombras chegaram. Com as novas leis de imigração ameaçando sua permanência e a carreira de Austin estagnada, o encanto quebrou. Onde havia carinho, surgiu o amargor. Aos oito meses de namoro, o limite foi cruzado: a primeira discussão que terminou em um empurrão e um tapa estalado. O Austin que ela amava havia sumido, dando lugar a um homem que gastava o pouco que tinham em bebidas.
Certa manhã, Sabrina acordou com um enjoo que não passava. O instinto gritou. Com as mãos calejadas de empurrar a cadeira sozinha e os dedos contando os poucos dólares que restavam, ela foi à farmácia. O caminho pareceu mais longo que o normal.
No banheiro de casa, o silêncio era ensurdecedor enquanto esperava o resultado. Dois riscos. Positivo. O coração dela disparou — uma mistura de amor instintivo e um medo paralisante. Ela conhecia o temperamento de Austin.
Quando ele chegou do "trabalho" naquela noite, a reação foi uma explosão de fúria. "Eu não quero isso! Você dá um jeito!", ele gritou. A partir dali, o que era ruim virou um inferno.

Dias depois, Sabrina seguiu para sua primeira ultrassonografia. A voz de Austin ainda ecoava na sua mente: "Acho bom você tirar essa criança". Ela ignorou. Aquele bebê era dela.
Ao chegar na entrada do hospital, deparou-se com um degrau alto demais. Ela tentou uma, duas vezes, as rodas derrapando no cimento.
— Precisa de uma mão aqui? — Uma voz suave interrompeu sua frustração.
Um enfermeiro de sorriso gentil segurou as manoplas da cadeira e, com um movimento firme e cuidadoso, a ajudou a subir.
— Obrigada... — ela começou, recuperando o fôlego.
— Alejandro — ele completou, continuando a empurrá-la para dentro do ar-condicionado gelado do hospital. — Para onde vamos, senhorita?
— Eu tenho um ultrassom. Estou grávida — ela disse, e pela primeira vez em dias, um sorriso genuíno iluminou seu rosto.
— Que notícia maravilhosa! Crianças são sempre uma bênção — Alejandro comentou, sentando-se ao lado dela na sala de espera.
— Você não precisa voltar ao trabalho? — Sabrina perguntou, surpresa com a atenção.
— Estou no meu horário de almoço. E minha amiga sempre diz que não se deve deixar damas bonitas sozinhas.
Sabrina corou levemente e brincou:
— Olha, eu tenho namorado, viu?
Alejandro soltou uma risadinha e piscou:
— E eu sou gay, querida.
A gargalhada de Sabrina foi tão alta e verdadeira que as outras pacientes olharam, contagiadas. Por um momento, o peso de Austin e das ameaças sumiu. Eles conversaram sobre expectativas e sonhos até que a médica a chamou. Com toda a delicadeza, Alejandro a ajudou a se acomodar na maca.
— Boa sorte, Sabrina. A gente se vê por aí — ele se despediu.
A Dra. Miller entrou na sala, já preparando o aparelho.
— Vejo que já conheceu o Alejandro. Ele é o enfermeiro mais animado deste hospital.
— Ele é incrível — Sabrina sorriu, sentindo o gel gelado em seu ventre.
O silêncio tomou conta da sala enquanto a médica movia o transdutor. O olhar da doutora estava atento, focado na tela granulada. Sabrina segurou o ar.

O consultório da Dra. Miller era silencioso, preenchido apenas pelo som rítmico e metálico do ar-condicionado. Sabrina estava deitada na maca, sentindo o gel frio e viscoso sobre o ventre, uma sensação que a fazia estremecer levemente. Seus olhos estavam fixos no teto, as mãos apertando as bordas do lençol de papel que cobria a mesa de exames. Ela rezava em silêncio, pedindo que aquele pequeno ser ali dentro estivesse bem, apesar de todo o estresse e das brigas em casa.
— Vamos ver quem temos aqui... — a médica murmurou, movendo o transdutor com movimentos circulares e precisos.
No monitor, borrões cinzas e brancos começaram a ganhar forma. Sabrina virou o rosto, tentando decifrar o que via. O coração batia tão forte que ela sentia o pulso no pescoço. De repente, um som preencheu a sala. Tum-tum, tum-tum, tum-tum. O som da vida. Rápido, forte, como um galope.
— Esse é o coração? — Sabrina perguntou, a voz embargada, os olhos já marejados.
A Dra. Miller não respondeu de imediato. Ela franziu o cenho, ajustou o contraste da tela e moveu o aparelho para o lado esquerdo, depois para o direito. O som do batimento parecia se duplicar, criando um eco rítmico na sala.
— Sabrina... olhe aqui — a médica apontou para a tela. — Está vendo este saco gestacional? E este outro logo ao lado?
Sabrina apertou os olhos, tentando focar. Ela viu dois pequenos feijões brancos, cada um pulsando com uma energia própria.
— Eu não estou vendo um só coração, Sabrina. Eu estou ouvindo dois. Parabéns, você está esperando gêmeos.
O mundo pareceu parar por um segundo. O ar fugiu dos pulmões de Sabrina. Gêmeos. Dois bebês. O impacto daquelas palavras a atingiu como uma onda. Por um instante, o medo de Austin, a falta de dinheiro e a incerteza da imigração desapareceram. Tudo o que existia era aquela imagem granulada e o som daqueles dois coraçõezinhos lutando para crescer dentro dela.
— Dois? — ela sussurrou, uma lágrima solitária escorrendo pelo canto do olho e molhando o travesseiro da maca. — Dra., tem certeza? Eu... eu nem sei o que dizer.
— Absoluta. Eles parecem saudáveis e com batimentos bem fortes. São dois pequenos guerreiros aí dentro.
Sabrina levou a mão à boca, sufocando um soluço. Era uma alegria tão imensa que chegava a doer, mas logo em seguida, o "frio" voltou. A imagem do rosto irado de Austin surgiu em sua mente. Se ele já odiava a ideia de um filho, o que diria de dois? Ela sentiu um calafrio percorrer a espinha. Como ela cuidaria de dois bebês sendo cadeirante e vivendo sob o mesmo teto que um homem que se tornara um monstro?
A Dra. Miller, percebendo a mudança súbita na expressão da paciente, desligou o som do ultrassom e limpou o gel da barriga de Sabrina com delicadeza.
— Sabrina, você parece preocupada. O pai... ele vai ficar feliz?
Sabrina forçou um sorriso amarelo, mas seus olhos não conseguiram mentir.
— Vai ser uma surpresa. Uma surpresa bem grande.

Após imprimir as fotos do exame, Sabrina saiu da sala. Seus dedos tremiam ao segurar o papel térmico. Ela olhava para as duas manchinhas brancas e sentia uma força nova nascer em algum lugar profundo de sua alma. Ela não era mais apenas "Sabrina, a imigrante cadeirante". Ela era a proteção daqueles dois seres.
No corredor, ela encontrou Alejandro novamente. Ele estava conversando com uma colega, mas assim que viu Sabrina, seus olhos brilharam.
— E então? Como foi lá dentro? — ele perguntou, aproximando-se com aquele mesmo jeito leve.
Sabrina olhou para ele, o papel ainda tremendo em suas mãos. Sem dizer nada, ela estendeu a foto da ultrassonografia. Alejandro pegou o papel, analisou por alguns segundos e seus olhos se arregalaram. Ele deu um pulo de alegria, literalmente.
— Mentira! Gêmeos?! Sabrina, isso é incrível! — Ele se abaixou para ficar na altura dela, transbordando uma energia que ela precisava desesperadamente. — Você tem noção da sorte que é isso? O universo te deu o dobro de amor!
— Eu estou com medo, Alejandro — ela confessou, a voz quase um sussurro no meio do corredor movimentado. — É muita coisa ao mesmo tempo.
Alejandro segurou a mão dela, os olhos sérios agora, mas ainda gentis.
— Escuta aqui. Eu não te conheço há muito tempo, mas eu vi como você subiu aquela escada hoje. Você tem braços fortes e um coração maior ainda. Quem tem o dobro de trabalho, ganha o dobro de força. Se precisar de qualquer coisa, eu estou neste hospital quase 24 horas por dia. Não se sinta sozinha.
Sabrina sentiu um nó na garganta. A bondade daquele estranho era o oposto da crueldade de quem deveria amá-la em casa. Ela agradeceu com um aceno de cabeça e começou a girar as rodas da cadeira em direção à saída.
O sol batia forte no asfalto. Cada metro que ela avançava em direção ao apartamento que dividia com Austin era como caminhar para o centro de uma tempestade. Ela guardou a foto dentro da bolsa, escondida, como se fosse um tesouro proibido.
Ela sabia que a noite seria longa. Ela sabia que o anúncio poderia desencadear mais um surto de fúria. Mas, ao tocar a própria barriga, Sabrina sentiu um chute imaginário (ou talvez apenas seu próprio coração acelerado). Ela não deixaria que Austin apagasse aquela luz. Não dessa vez.

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Oii, espero que tenha gostado desse capítulo. Caso tenha gostado continue acompanhando!

TTK:ghost.books1. vai lá da uma olhada, tem vários vídeos sobre elas.

Obrigada 🤍

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