Princípios celestiais

32 2 5
                                        


Mesmo sendo criada sob as imagens de livros de contos de fada e romances fúteis, Lumine não era uma pessoa muito romântica. Claro, frequentava ateliês sobre etiqueta matrimonial — qual vestido usar para esperar seu marido em casa, qual enxoval escolher, qual presente dar — mas nada disso penetrava sua mente por muito tempo.

Não o bastante para ela fantasiar seu próprio casamento, provavelmente com algum homem no qual seu dote seria oferecido em uma bandeja, e seu coração, obrigado à ser entregue junto.

E, mesmo não gostando da ideia do romance forçado, Lumine ainda sentia o último raio de sol do fim de tarde acariciar sua bochecha pálida, coberta por uma fina camada de blush natural
— segundo vossas aias, feito por fadinhas da beleza — cobrindo parte de suas diversas sardas, que eram fracas porém ainda sim visíveis, como um exército de constelações.

Junto à carícia, o sol poente não apenas invadia seus aposentos, mas os venerava, como se até mesmo o sol se curvasse à tamanha demonstração de poder. Um poder que Lumine desprezava, mesmo sendo uma componente disso.

A luz atravessava os vitrais altos em feixes dourados, tingindo o mármore branco e o quartzo rosa com reflexos de cores âmbar e carmesim. As tapeçarias feitas pela princesa, bordadas com fios de ouro, reluziam suavemente, o ar carregando o perfume delicado e familiar, cujo aroma acompanhou Lumine à crescer, tornando-se o que ela é hoje.

No centro daquele cenário quase sagrado, Lumine mantinha a postura ereta sobre a cadeira entalhada à mão, as costas alinhadas como lhe fora ensinado desde a infância. O pano preso à um círculo de madeira descansava firmemente entre a palma da mão e seus dedos, enquanto na outra, uma agulha era posicionada preguiçosamente entre eles.

Ela bordava lírios e mais lírios, alguns já prontos, nas cores violeta, azul cristal e branco. E, como se não fossem suficientes, ela continuava fazendo mais. E mais. E mais, e mais. Um reflexo de sua vida, como se todos os lírios do mundo nunca fossem suficientes.

O tecido branco já estava quase farto de ceder espaço para a loira bordar as últimas flores. O bordado estava divino, típico de uma princesa. Mas, o que era atípico, era o fato de que seus pensamentos atravessavam aquele tecido, muito além disso, atravessavam as muralhas do palácio, corriam pelos campos além do vilarejo e da fronteira, tocavam algo que ela mesma não saberia nomear. Algo que fosse seu por mérito, e vontade própria.

Talvez, liberdade.

Como se seu próprio subconsciente a avisasse de tamanho pecado contra seu reino, a agulha escapou de seu próprio controle. Um pequeno erro na linha puxada torta, um ajuste apressado demais — como seus pensamentos, tão longes da realidade quanto sua coroação — e a ponta metálica atravessou a pele de seu dedo indicador.

O gesto foi silencioso, porém o susto, não. Lumine franziu o cenho, tão forte que quase uniu ambas as sobrancelhas, deixando o bordado propositalmente cair no chão. A linha azul, presa à agulha que ela ainda segurava penetrada em seu indicador, acabou por puxar sua extensão, desfazendo alguns pontos em seu bordado, que outrora era tão importante para ela.

Ela observou o próprio sangue com curiosidade contida, como se fosse algo raro. Espremeu a ponta, fazendo mais sangue emergir.

Vermelho.

Não azul como os mitos falavam, mas vermelho. Um simples, porém útil lembrete de se certificar de que ela era real, apesar de sua vida ser tão monótona ao ponto de, às vezes, fazê-la se sentir fruto da imaginação fértil de alguém.

"Princesas não sangram" diziam as aias quando ela era criança. Mas ali estava ela, sangrando, por mais comum que aquilo seja.

Do outro lado do cômodo, próximo à ampla janela arqueada, Aether, seu irmão gêmeo, permanecia sentado sobre o parapeito largo de pedra, uma das pernas dobrada, e a outra balançando levemente no ar, de forma distraída.

Sob o peso do Crepúsculo - DainlumiStories to obsess over. Discover now