Capítulo 1 - O Tipo de Silêncio Que Fica

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Há pessoas que aprendemos a esquecer.
E há aquelas que aprendemos a evitar.

Ohm nunca teve certeza em qual categoria Nanon se encaixava.

Durante anos, ele escolheu acreditar que era a primeira.

Era mais fácil.

Mais funcional.

Mais adulto.

O problema é que o corpo nunca concordou com essa versão.

Ele aprendeu isso na noite em que o viu novamente.

O evento era grande demais para permitir distrações. Luzes brancas, música baixa, vozes educadas demais para serem sinceras. Um lançamento corporativo que misturava empresários, artistas e investidores com taças de vinho e sorrisos calculados.

Ohm estava acostumado com esse ambiente agora.

Terno sob medida. Postura controlada.

Conversas estratégicas.

Ele sabia exatamente como parecer impenetrável.

Até o momento em que levantou o olhar — e encontrou o dele.

Nanon.

Do outro lado do salão.

Mais magro. Mais elegante. O cabelo mais curto.

O olhar... o mesmo.

O tempo fez o que o tempo sempre faz: suavizou as arestas externas e aprofundou as internas.

Eles não se viam há cinco anos.

Cinco anos desde a última conversa. Quatro desde o último contato indireto. Três desde que

Ohm parou de procurar o nome dele em notícias por impulso.

Dois desde que fingiu que já não importava.
Mas ali, naquele segundo exato, nenhuma dessas contagens parecia relevante.

Porque o corpo reconhece antes da mente.

E o reconhecimento é cruel.

Nanon também o viu.

Não houve surpresa explícita.

Não houve sorriso.

Houve um pequeno enrijecer do maxilar.

Um ajuste quase imperceptível na postura.
O tipo de reação que só acontece quando algo ainda significa.

Eles não atravessaram o salão imediatamente.

Adultos não fazem isso.

Adultos respiram. Continuam a conversa. Terminam a taça.

Ohm demorou exatos três minutos antes de sentir o peso da ausência dele no campo de visão.

Quando procurou de novo, Nanon já estava mais perto.

Não o suficiente para parecer intencional.

O suficiente para ser inevitável.

Foi Nanon quem falou primeiro.
— Você continua odiando eventos assim?

A voz era mais grave. Mais controlada.

Ohm demorou meio segundo para responder.
— Eu aprendi a tolerar.

Um silêncio curto se instalou entre eles.

Não desconfortável.

Denso.

Carregado de coisas não ditas.

De memórias que não precisavam de nome.

— Faz quanto tempo? — Nanon perguntou, como se não soubesse.
— Tempo suficiente.
Nanon assentiu levemente.

Era assim que funcionava entre eles.

Nunca direto demais. Nunca simples demais.
— Você está bem? — Ohm perguntou.

Pergunta neutra. Tom neutro.

Nada era neutro.

Nanon segurava a taça com firmeza calculada.
— Estou.
Outra pausa.
— E você?
Ohm sustentou o olhar.
— Estou aprendendo.

O canto da boca de Nanon quase se moveu.

Quase.

E ali estava o perigo.

Não era saudade declarada. Nem arrependimento explícito.

Era familiaridade.

O tipo que não desaparece com o tempo.

A música mudou.

Alguém chamou o nome de Nanon do outro lado do salão.

O mundo exigia que eles voltassem às versões funcionais de si mesmos.

— A gente se vê por aí — Nanon disse.
Não era promessa. Nem despedida definitiva.
Era a frase mais segura possível.

Ohm assentiu.
— Por aí.

Eles se afastaram em direções opostas.

Mas algo havia mudado no ar.

Porque alguns amores não terminam quando as pessoas se separam.

Eles apenas aprendem a existir em silêncio.

E o silêncio, às vezes, é o que mais ecoa.

Between What We WereWhere stories live. Discover now