Antes de tudo acabar, existia um lugar onde elas acreditavam que o amor bastava. Onde o toque era familiar, e o silêncio não pesava entre as duas. Onde planejar o amanhã era simples, porque o amanhã, de alguma forma, sempre incluía "nós".
Cairo já não vivia nesse lugar havia algum tempo — embora ainda estivesse lá. Ainda dormia ao lado de CC, ainda compartilhava chaves, contas, risadas rápidas, rotinas apertadas pelas horas. Mas algo nela havia se deslocado, como uma porta que fechou sem fazer barulho. Não foi uma briga, não foi um dia específico. Foi um acúmulo lento, quase invisível. CC começou a sentir falta dela enquanto ela ainda estava deitada ao seu lado.
CC amava Cairo com uma intensidade que às vezes parecia maior do que o próprio corpo podia suportar. Era um amor que transbordava, que se oferecia, que se moldava. CC sempre pensava em Cairo antes de pensar em si — nos planos, nas pequenas decisões, nas viagens, nos domingos comuns. Para CC, amar era incluir. Tudo tinha o rosto de Cairo. Tudo tinha o toque dela.
Mas Cairo... Cairo cansou de carregar o mundo. Foi ensinada desde cedo a ser forte, a não pedir, a resolver sozinha. Amor, para ela, não era se jogar: era resistir. E quanto mais resistia, menos espaço sobrava para ser leve — para sentir. Ela continuava ali, mas distante. O toque ficou raro. Os beijos passaram a ser breves, quase distraídos. Quando CC se aproximava, Cairo desviava, suavemente, como se não percebesse. Quando a chamavam de "amor", Cairo respondia com o nome. Quando alguém comentava "como você aguenta?", ela ria e dizia "nem eu sei". Não era maldade. Era só... exaustão. Um coração que não encontrou lugar para descansar.
E CC via. Sentia. Tentava puxar Cairo de volta com palavras, com cuidado, com o medo desesperado de perder o que sempre acreditou que era para sempre. Mas o que se faz quando o amor existe — porém não alcança?
Ainda assim, tiveram seus momentos. Como naquela viagem para comemorar seis anos juntas. Uma cidade diferente, um quarto pequeno com luz quente, e uma banheira que não cabia duas, mas elas insistiram mesmo assim. Estavam grudadas, água morna, pele na pele, riso fácil, mãos deslizando com carinho de quem reconhece a casa no corpo do outro. Ali, por algumas horas, elas voltaram a ser quem já foram. Sem pressa. Sem medo. Dizendo "eu te amo" com a boca e com os dedos.
Foi lindo. Foi real.
Mas depois, quando CC tentou conversar sobre tudo que doía, Cairo ficou em silêncio. Um silêncio que não era escuta era ausência. CC falou, e Cairo apenas existiu ali, imóvel, como se as palavras estivessem chegando tarde demais. E CC, que sempre foi o tipo de pessoa que sentia tudo de uma vez, quis ir embora só para não chorar na frente dela.
Porque, às vezes, o amor dói mais quando ainda está vivo.
No fim, quando o desgaste finalmente transbordou, Cairo disse uma frase que ficou presa no peito de CC como um espinho que se recusa a sair:
"Eu vejo seu esforço. Eu vejo tudo.
Mas eu não consigo mais bater palmas para pequenas coisas feitas tarde demais."
CC não respondeu. Não havia nada para defender quando o amor já estava cansado.
A história começa aqui: no lugar onde o amor ainda existe, mas o futuro não.
Onde uma ama muito, e a outra... sente tudo, mas já não sabe como ficar.
Onde a dor não é do fim, mas de perceber que elas já estavam perdidas antes mesmo de se despedirem.
A tarde estava cinza.
Não chovendo só cinza.
Como se o céu estivesse esperando uma palavra errada para desabar.
Cairo estava de costas, dobrando uma blusa que não precisava ser dobrada. Ela só precisava manter as mãos ocupadas. CC a observava da mesa, o copo de água pela metade, intocado há horas.
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Cartas pra você.
FanficSeis anos de uma relação que começou leve, quase simples, e foi ficando funda demais pra caber só no amor. As duas se encontraram num momento em que ainda estavam se construindo como pessoas. CC cresceu rápido, virou dona de uma empresa de fotografi...
