Capítulo 1: O Peso do Sangue e o Cheiro de Incenso
O calor de Udon Thani era diferente de tudo o que Esmeralda já havia sentido. Não era apenas o clima; era uma pressão no ar, como se a própria terra estivesse observando cada passo seu e de seu irmão gêmeo, Khemjira.
Sentada no banco de trás do carro de Jet, Esmeralda apertou a mão de Khem. Eles eram o reflexo um do outro: a mesma pele pálida, os mesmos olhos carregados de um cansaço que nenhum sono dezoito anos poderia curar. A maldição da família não era um conto de fadas para assustar crianças; era o frio que subia pela espinha de Esmeralda todas as noites às três da manhã.
— Vai ficar tudo bem, Khem — sussurrou ela, embora sentisse o próprio amuleto queimando contra o peito. — Jet disse que eles podem ajudar.
Khemjira não respondeu, apenas assentiu, os olhos fixos na estrada de terra que levava à casa de madeira cercada por árvores antigas. Jet estacionou e, ao descerem, o silêncio do lugar foi quebrado pelo som de sinos de vento metálicos.
— Paran! Kachain! — Jet chamou, sua voz soando urgente.
A porta da casa se abriu. Dois homens surgiram na varanda. O primeiro, Paran, tinha uma aura de autoridade e calma absoluta. Mas foi o segundo que fez o coração de Esmeralda errar uma batida.
Kachain desceu os degraus lentamente. Ele vestia roupas escuras e simples, mas seus olhos eram afiados como lâminas de prata. Ele não olhou para Jet, nem imediatamente para Khem. Seu olhar travou em Esmeralda.
— Você não disse que eram dois, Jet — a voz de Kachain era profunda, enviando um calafrio que não era de medo, mas de reconhecimento, por todo o corpo dela.
— Eles são gêmeos — explicou Jet, apressado. — Khemjira é quem os espíritos perseguem com mais fúria, mas Esmeralda...
— Esmeralda carrega o eco — interrompeu Kachain, caminhando até parar a poucos centímetros dela.
O cheiro dele era uma mistura de sândalo, chuva e algo puramente místico. Ele estendeu a mão, mas não a tocou; em vez disso, moveu os dedos pelo ar ao redor do rosto de Esmeralda, como se estivesse desfazendo teias de aranha invisíveis.
Esmeralda sentiu uma eletricidade percorrer sua pele. Pela primeira vez em anos, o sussurro constante que habitava o fundo de sua mente silenciou.
— A vida deles está trançada como uma corda — disse Paran, aproximando-se com uma expressão grave. — Se tentarmos proteger apenas o rapaz, a maldição passará por ela para alcançá-lo.
Kachain finalmente desviou os olhos de Esmeralda para olhar para Paran, mas sua mão desceu e, por um breve segundo, seus dedos roçaram o pulso dela, onde o pulso batia acelerado.
— Eu cuido dela — declarou Kachain, e o tom de sua voz não aceitava discussões. — Se a vida dela está ligada à dele, então a minha vida será ligada à dela a partir de agora. Para que a escuridão a leve, terá que passar por mim primeiro.
Esmeralda olhou para o irmão, que parecia tão em choque quanto ela. A jornada para quebrar a maldição estava apenas começando, mas ali, sob o sol poente de Udon Thani, ela soube que seu destino não pertencia mais apenas à sua família. Agora, ele pertencia ao xamã de olhos intensos que se recusava a soltar sua presença.
Capítulo 2: O Ritual do Fio de Sangue
A noite em Udon Thani caiu como um manto pesado. No pátio da casa de Paran, o ar estava carregado com o cheiro de ervas queimadas e o som rítmico de orações em pali. Enquanto Paran se concentrava em Khemjira, Kachain levou Esmeralda para um canto mais reservado, sob a sombra de uma árvore centenária adornada com tecidos coloridos.
— Sente-se aqui — ordenou Kachain, sua voz mais suave agora, mas ainda carregada de uma seriedade mortal.
Esmeralda obedeceu, sentando-se sobre uma esteira de palha. À sua frente, Kachain organizava tigelas de bronze, velas de cera de abelha e um rolo de fio de algodão branco.
— Por que você disse que minha vida está ligada à dele? — ela perguntou, sentindo o frio da maldição começar a subir pelos seus pés.
Kachain parou o que estava fazendo e olhou nos olhos dela. A chama da vela refletia no olhar dele, tornando-o quase sobrenatural.
— Porque vocês dividiram o mesmo ventre sob o peso da mesma escuridão. O que quer que tente devorar Khemjira, usará você como ponte. Se eu não fechar essa ponte, a maldição consumirá ambos antes do amanhecer.
Ele pegou a mão de Esmeralda. O toque dele era quente e firme, um contraste absoluto com o gelo que ela sentia por dentro. Kachain pegou uma pequena adaga ritualística e, com uma precisão cirúrgica, fez um minúsculo corte na ponta do próprio dedo e, em seguida, na palma da mão de Esmeralda.
Ela soltou um gemido baixo, mas ele não soltou sua mão.
— Não tema, Esmeralda. É necessário.
Kachain mergulhou o fio branco no sangue que se misturava entre os dois. Ele começou a enrolar o fio ensanguentado no pulso dela, murmurando um mantra baixo que parecia fazer o chão vibrar. A cada volta do fio, Esmeralda sentia uma pressão no peito, como se um laço invisível estivesse sendo apertado, ligando sua alma à dele.
— Com este sangue, eu selo seu caminho — entoou Kachain. — O que te ferir, me ferirá. O que te assombrar, terá que enfrentar a minha luz.
No momento em que ele terminou o nó, um grito agudo de um espírito ecoou da floresta próxima, mas o som não conseguiu penetrar o círculo de proteção. Kachain aproximou o rosto do dela, a respiração dele agora misturada à sua.
— Sente isso? — ele sussurrou.
Esmeralda assentiu, com os olhos marejados. Pela primeira vez na vida, ela não se sentia uma vítima da maldição de sua família. Ela se sentia... protegida.
— Eu sinto o seu coração — confessou ela em um sussurro.
— É o meu juramento — respondeu ele, os dedos acariciando o pulso dela sobre o fio agora vermelho. — De agora em diante, Esmeralda, você nunca mais enfrentará a escuridão sozinha.
Ao longe, ela viu Jet observando-os com uma mistura de alívio e preocupação. A batalha para salvar Khemjira estava longe de terminar, mas ali, nos braços do xamã, Esmeralda encontrou uma força que nem a morte ousaria desafiar.
