⠀⠀⠀⠀único.

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⠀ eu sempre amei a jennie em silêncio.

e talvez o silêncio tenha sido o nosso maior erro, porque foi nele que escondi tudo o que deveria ter sido dito, foi nele que guardei cada olhar demorado, cada suspiro preso na garganta, cada vontade absurda de segurar o rosto dela entre as mãos e dizer que ela nunca, em hipótese alguma, foi insuficiente.

eu a amava desde os pequenos gestos — o jeito como ela franzia o nariz quando estava concentrada, como mexia no cabelo quando estava ansiosa, como ria alto demais quando queria disfarçar que estava machucada, e eu aprendi a decorar cada detalhe como quem memoriza uma oração, porque amar jennie era quase sagrado para mim, era uma coisa grande demais para caber em palavras simples.

então eu escolhi não dizer nada, escolhi ser abrigo, ser ombro, ser casa, enquanto por dentro eu era um mar inteiro tentando não transbordar.

eu, jisoo, me acostumei a amar de longe mesmo estando perto, me acostumei a assistir enquanto ela entregava o coração para pessoas que nunca souberam segurá-lo com cuidado suficiente, porque jennie sempre se apaixonava como quem pede desculpas, sempre entrava em relacionamentos acreditando que precisava se moldar, diminuir o brilho, ocupar menos espaço, falar mais baixo, rir menos alto, ser menos intensa, como se o amor fosse algo que ela tivesse que merecer com sacrifícios constantes.

eu via tudo isso acontecer e doía de um jeito silencioso, porque eu queria ser egoísta, queria ser a escolhida, mas ao mesmo tempo queria que ela fosse feliz, e se a felicidade dela estivesse nos braços de outra pessoa, eu engoliria o próprio amor e sorriria, mesmo que aquilo me rasgasse por dentro.

o último namoro dela foi com kim taehyung, e eu preciso admitir que ele era gentil, talvez gentil demais para alguém como ela que estava acostumada a receber migalhas emocionais; ele a tratava com cuidado, prestava atenção quando ela falava, segurava sua mão em público sem medo, e eu via nos olhos dele um carinho verdadeiro, mas ainda assim jennie não conseguia acreditar que aquilo era real, porque dentro dela existia uma voz antiga e cruel repetindo que ela não era suficiente para ninguém, que em algum momento ele perceberia seus “defeitos”, que se cansaria, que a deixaria, e então ela decidiu se adiantar ao abandono e foi embora antes que ele tivesse a chance de ficar, dizendo que não era boa o bastante, que ele merecia alguém melhor.

e naquela noite ela chorou no chão do meu quarto, com a cabeça apoiada na lateral da minha cama, repetindo entre soluços que estragava tudo o que tocava, enquanto eu me ajoelhava ao lado dela segurando seus ombros e lutando contra a vontade de confessar que, se existia alguém que merecia algo melhor, esse alguém era ela.

mas o que mais machucava jennie não eram apenas os namoros fracassados, era a casa para a qual ela sempre precisava voltar, era a mãe que transformava amor em competição, que comparava, criticava, diminuía, que elogiava na frente dos outros e apontava falhas quando as portas se fechavam, era aquela presença constante dizendo que ela podia ser melhor, mais bonita, mais inteligente, mais comportada, mais perfeita, como se o amor fosse um prêmio entregue apenas após atingir um padrão impossível.

eu vi jennie voltar de ligações com os olhos vermelhos, vi suas mãos tremerem depois de discussões que ela fingia não a afetar, vi a culpa se instalar nela como se fosse natural carregar o peso de não corresponder às expectativas de alguém que deveria protegê-la, e por isso ela vinha para a minha casa tantas vezes, batendo na minha porta tarde da noite, abraçando o próprio corpo como se estivesse tentando impedir que ele se despedaçasse, perguntando baixinho se podia ficar, e eu sempre dizia que sim, porque meu quarto era o único lugar onde ela parecia conseguir respirar sem medo.

ela dormia ao meu lado, encolhida, e às vezes eu ficava acordada observando o contorno do rosto dela na luz fraca do abajur, pensando em como alguém tão extraordinário podia se sentir tão pequeno, pensando em como eu queria ser a razão da sua segurança e não apenas o lugar onde ela se escondia do mundo.

silêncio, jensoo. Geschichten, die süchtig machen. Entdecke jetzt