1. Eu brinco de pega-pega com um grifo!

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Eu não devia ter aceitado.
Porra, eu realmente não devia ter aceitado!

Fugindo, algo zuniu perto da minha orelha esquerda. Me abaixei por reflexo, mas não foi o suficiente.

- Arthur, cuidado! - Selena gritou, mas já era tarde.

Fui arremessado por algo pesado. Era rápido demais - eu com certeza já teria morrido se fosse antes do Despertar -, mas agora consegui acompanhar com os olhos.

Afundei na parede do templo. Minha garganta ardia. Por um instante, pensei em desistir e ficar ali mesmo, mas seria covarde demais. Selena ficaria sozinha.
Mal consegui me levantar, o grifo já investia novamente em minha direção.

- Calma aí, paizão! - Ainda estava me acostumando com o Despertar, mas consegui desviar com um salto. O grifo cravou o corpo na parede.

- Selena, faz alguma coisa! - gritei, desesperado, ao pousar.

- Calma, eu tô tentando! - Ela juntou as mãos, concentrada. O ar ao redor vibrou. Faíscas dançavam à sua volta.

O grifo se soltou da parede e alçou voo, me encarando com olhos furiosos.

"Ele vai mergulhar."
Era óbvio. Ele não tinha outra forma de atacar no ar.
Vou arriscar.

Esperei. O grifo mergulhou em minha direção.
- Rápido, Selena! - gritei. Ele vinha numa velocidade absurda, mas, por incrível que pareça, eu conseguia acompanhar.

"Meu Deus, eu vou morrer..."
Esperei o momento certo.

- Você vem comigo! - Quando ele chegou perto, me lancei de ponta-cabeça por cima dele e agarrei uma das asas. Puxei com toda a força - nada. Achei que meu braço fosse ser arrancado.

Caímos juntos. O impacto me atravessou como um trovão. Cada célula gritava pra eu fugir. Mesmo com os olhos cheios de poeira, eu não tirei a mira do grifo.

- Seja lá o que estiver fazendo, agiliza! - gritei, ferido.

- Então sai de cima! - Selena respondeu, mais desesperada que eu. Percebi que o golpe seria sério. Ia machucar pra valer.

"Será que vai matar ele?" - pensei. Ela estava há tempo demais acumulando energia.
E ainda bem que pulei quando pulei.

Das palmas dela surgiu o que parecia uma tempestade compacta - nuvens girando com relâmpagos no interior. Seu cabelo flutuava como se estivesse submerso em água, e pequenas pedras ao redor começaram a levitar.

- Sinto muito. - Ela falou com pena, mas também com firmeza.

A esfera de energia subiu e explodiu num pilar de eletricidade. Vi o raio atravessar o grifo, abrindo uma cratera no peito antes de desintegrar tudo.

- Arthur, você tá bem!? Eu te disse pra sair, droga! - Selena correu até mim. Vi o desespero em seus olhos. Meus batimentos desaceleravam.

- Arthur? Selena? - A voz de Erick ecoou no corredor.

- Mais bem que isso impossível... - tentei brincar. Minha visão turvou, e o som das brasas no chão se tornou distante. Então o mundo se apagou.

Por incrível que pareça, minha vida não era assim há duas semanas.
Tudo mudou no meu aniversário.

- Acorda, Arthur, vai se atrasar! - meu pai gritou, entrando no quarto.

- Tô não, mermão. - respondi, meio dormindo.

- Seu moleque... - Ele me chacoalhou até eu abrir os olhos.

- Eu odeio escola, odeio pessoas, odeio acordar cedo... - murmurei, indo pro banheiro.
No espelho, notei que meu cabelo tinha crescido. Quem cortava era ela... então fazia sentido.
Era o primeiro dia de aula sem ela me levando.

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