Capítulo 1- Domingo Ensolarado

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Era domingo. O tipo de domingo que parece nascer pronto, com o céu limpo e o sol espalhando ouro líquido sobre os telhados da cidade.

Dominique despertou com a claridade atravessando as frestas da cortina. Permaneceu alguns segundos deitada, observando o teto, como se organizasse silenciosamente seus pensamentos. Levantou-se com calma. Vestiu sua roupa com cuidado quase ritualístico, calçou os sapatos, ajeitou a mochila preta sobre a cama e, antes de sair do quarto, respirou fundo — como quem se prepara para um dia simples e comum.
Na cozinha, o aroma leve de café ainda pairava no ar. Diante do armário, abriu a porta com familiaridade e retirou seu pacote favorito de biscoitos de morango. Observou-o por um instante, satisfeita, e o guardou dentro da mochila como se estivesse protegendo um pequeno tesouro.

— Vou ao parque, mãe — anunciou.
Maurice, sua mãe, respondeu com um sorriso sereno e um aceno despreocupado.

O parque ficava a poucas quadras dali, não mais que dois quilômetros. Dominique caminhava devagar pela calçada, absorvendo cada detalhe do trajeto. Os edifícios altos refletiam os raios solares em seus vidros, criando pequenos clarões que obrigavam os olhos a semicerrar. O fluxo constante dos carros produzia um ruído contínuo, quase abafando o canto tímido dos pássaros escondidos nas árvores urbanas.

Ao atravessar o portal de madeira do parque — esculpido com delicadeza e trazendo a inscrição “Sejam todos bem-vindos” — sentiu-se envolvida por uma atmosfera diferente. Era como se aquele espaço existisse à parte da cidade.
O parque estava cheio. Eram exatamente dez da manhã. Crianças corriam pela grama, casais conversavam à sombra das árvores frondosas, idosos ocupavam bancos de madeira de marfim alinhados ao longo dos caminhos de pedra. No centro, o chafariz lançava jatos de água cristalina que reluziam sob o sol, atraindo olhares distraídos.
Um pequeno riacho serpenteava discretamente por entre as árvores, acrescentando ao ambiente um murmúrio constante e suave.

Dominique procurou um banco vazio e logo encontrou um, ligeiramente afastado do movimento principal. Sentou-se. Colocou a mochila ao lado. Seus dedos ágeis abriram o zíper, e ela retirou o pacote de biscoitos, concentrada apenas na satisfação simples daquele momento.
Foi então que aconteceu.
A mochila escorregou de suas mãos e caiu ao chão.
Instintivamente, seu olhar foi primeiro para o pacote de biscoitos — intacto. Um suspiro silencioso de alívio escapou-lhe. Só então abaixou-se para puxar a mochila pela alça.
Mas algo chamou sua atenção.
Debaixo do banco, parcialmente escondida pela sombra, havia outra mochila.
Era marrom — ou talvez bege — de tamanho médio, discreta, comum demais para chamar atenção… e ainda assim, abandonada.
Dominique franziu a testa. Pegou-a com cuidado. Olhou ao redor. Ninguém parecia notar sua existência. Ninguém procurava por ela. Nenhum olhar aflito. Nenhuma voz chamando.
A curiosidade começou a pulsar.
Seus dedos tocaram lentamente o zíper.
Antes que pudesse abri-lo, uma sombra se projetou sobre ela.

Um homem vestindo terno e gravata pretos estava ali. Óculos escuros escondiam seus olhos. Luvas negras cobriam suas mãos. Sua presença era rígida, quase mecânica — lembrava um segurança, ou algo mais.
Sem dizer uma palavra, ele colocou a mão enluvada sobre a mochila.
Dominique se sobressaltou. O toque foi rápido, firme. Ela soltou o objeto como se tivesse encostado em algo elétrico.
E então—
O som.
Seco. Cortante. Definitivo.
Um tiro ecoou pelo parque.
Por um segundo, o mundo pareceu suspenso.

O homem de preto foi lançado para trás. O impacto o atravessou com brutalidade. Seu corpo caiu pesadamente sobre a grama, ao lado da mochila misteriosa.
Um grito surgiu de algum ponto. Depois outro. E então o caos.
As pessoas correram em direção ao portal de madeira. O que antes era uma entrada acolhedora transformou-se num gargalo desesperado de corpos tentando escapar. O som da água do chafariz misturava-se aos gritos e ao barulho atropelado dos passos.

Mas Dominique não se movia.
Ela permanecia sentada, imóvel, o coração martelando contra o peito. O homem estava ali. Caído. Inerte. A poucos metros dela.

O tiro… de onde viera?
Ninguém sabia.
Com mãos trêmulas, seus olhos recaíram sobre a mochila bege.
Por um instante, hesitou.
Então, num impulso quase inconsciente, pegou-a.
Levantou-se.
E, em meio à multidão que fugia, deixou o parque.
Atrás dela ficaram o corpo, o sangue começando a manchar a grama e uma pergunta suspensa no ar como o eco do disparo.
De onde veio o tiro?
E, mais importante…
O que havia dentro daquela mochila?

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