Estava frio. Muito frio. Eu podia sentir os minúsculos flocos de neve se desfazerem sobre minhas unhas pálidas e mal feitas. Eles irrigaram meus dedos enquanto a flecha era soltada.
No alvo.
Respirei fundo e o ar gélido saiu entre meus lábios, se perdendo na futura nevasca que ameaçava chegar. A lua se escondia entre as árvores de pinheiro e minha mão escorregava ao escolher uma nova flecha — a que estivesse mais suja, mais arrebentada — eu tinha que continuar sendo a melhor.
Não importasse a munição, eu sempre tenho que acertar.
Quando chegar a hora, eu não posso errar.
Fechei minhas pálpebras e visualizei os olhos escuros e vermelhos sangue entre o alvo ao longe, o corpo sem vida da criatura da noite, o sorriso maldoso e o ar demoníaco. Meus pulmões se encheram e eu soltei outra, e outra e outra, até os calos entre os meus dígitos se esfolarem, até meu braço queimar de força. Os flocos de neve já
alcançavam minhas bochechas, como se adentrassem dentro dos meus ossos.
Meus olhos buscavam por mais flechas — qualquer coisa — eu não podia parar. Mas todas as que antes estavam em um grande monte ao meu lado, estavam distribuídas entre todos os alvos do campo. Bufei e fui até um deles, tentando recuperá-las.
— Esse é o meu trabalho! — Azalea gritou, e eu suspirei mais uma vez — E eu já deixei você ficar aqui por mais trinta minutos, você sabe que eu vou levar um esporro se alguém te ver aqui — Eu sabia, era injusto com as outras caçadoras eu ter maior liberdade para treinar onde eu quisesse, e quando quisesse. A injustiça acabava quando todos lembravam qual era a minha predestinação.
— Eu preciso de mais flechas — Resmunguei, com uma parcialidade inteira em minha mãos — Pode ser mais fracas que essas.
— Eu vou pegar para você... amanhã. — Os olhos verdes de Azalea transbordavam seu cansaço, e minha barriga pesava pelo seu empenho de ainda estar ali, de ainda me deixar ficar ali até altas horas. Mas ela sabia que eu precisava disso — Vamos, Camellia, eu estou detonada.
Ela estendeu a mão, pedindo o arco de treinamento de volta. Passei minhas mãos pela arma e a entreguei, sentindo um leve incômodo onde este estava. A loira o envolveu e guardou em um pequeno compartimento de madeira, girando a chave que trancava todos os armários e portas do centro de treinamento.
— Vai querer carona? — Perguntou, esperei no balcão ela guardar todos os seus pertences em uma pequena mochila e desligar as velas que iluminavam o pequeno saguão do local.
— Não precisa — Eu sorri em agradecimento, e a ajudei a fechar o portão.
— Eu moro dois quarteirões de você, Lia. Pode subir — Ela andou até seu cavalo e acariciou sua crina feita de vinhas com espinhos e pequenas flores que brotavam entre eles. Azalea havia encontrado com um Verdant um dia e ele nunca mais saiu de seu lado. Sua pelagem é de um verde musgo tão semelhante ao da natureza que sua camuflagem quase chegava à perfeição. Seus cascos criavam pequenas raízes onde pisava e seus olhos eram verdes como os da garota loira. Eles eram feitos um para o outro.
A profecia nunca errava — toda caçadora, um dia, encontraria sua alma gêmea; um cavalo que seria seu companheiro para o resto da vida. O cavalo lhe escolheria, e seu elo seria inquebrável.
Existiam milhares de espécies do animal, além de lendas. Normalmente, todas as meninas encontravam com os chamados filhos da terra viva, os mais comuns que ficam vagando por florestas e montanhas. As sortudas — como Azalea — tem seus caminhos cruzados com os guardadores de domínios, que escolhem os cavaleiros mais dignos para serem seus donos. Mas para ter um coração da criação... precisa ser uma lenda, assim como eles.
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YOUNG BLOOD
FantasyQue a lua parta seu medo, mas nunca sua coragem. Há cada 6 anos, a Lua escolhia suas caçadoras, designando um alvo para cada uma delas e, se forem bem-sucedidas, vão conquistar o título de caçadoras de vampiros. Camellia Frost dedicou sua vida inte...
