Jiang Cheng dedicou a vida inteira à patinação artística. No auge da carreira, ele chega a Tóquio carregando mais do que a pressão olímpica: carrega o peso de uma nação que exige perfeição, de um mundo que o observa com desconfiança e de um amor que...
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O vento que soprava da Baía de Tóquio era carregado de uma umidade que penetrava nos ossos, transformando o ar dentro do Ariake Arena em algo denso e hostil. Para Jiang Cheng, o Japão não era apenas o palco das Olimpíadas de Inverno, era um território onde sua silhueta parecia uma cicatriz em um rosto limpo. A tensão geopolítica entre Pequim e Tóquio, inflamada por disputas territoriais recentes e discursos nacionalistas inflamados, transformava cada centímetro daquele ginásio em um campo minado. O nacionalismo japonês manifestava-se em olhares de soslaio dos voluntários e na ausência deliberada de aplausos quando seu nome era anunciado nas apresentações e nas vaias que recebeu nas duas premiações anteriores.
No vestiário de paredes brancas e luzes fluorescentes, o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som metálico de outros atletas guardando seus equipamentos. Jiang Cheng sentia-se em uma redoma de vidro, prestes a estilhaçar. Ele apertava os cadarços de seus patins com uma força descomunal, as mãos trêmulas transferindo toda a angústia acumulada para o couro rígido das botas pretas. Seus nós dos dedos estavam brancos, desprovidos de sangue, simbolizando a própria circulação que parecia parar em seu peito. Aos trinta anos, ele sabia que aquela era sua última competição mundial. O corpo, embora esculpido por décadas de uma disciplina espartana que beirava a autoflagelação, começava a dar sinais de fadiga para grandes campeonatos. Cada salto deixava um eco de dor nos joelhos, e ele sentia o peso de um bilhão de expectativas vindas de sua terra natal e, simultaneamente, o desprezo gélido de uma plateia que o via como um invasor indesejado.
- A-Cheng, respire. Por favor, olhe para mim antes que você corte a própria circulação.
A voz era como seda pura, um bálsamo que cortava a névoa espessa de sua ansiedade crônica. Lan Xichen estava ajoelhado à sua frente, ignorando o chão frio do vestiário olímpico. O renomado psicólogo e influenciador, cuja calma imperturbável era o pilar de milhares de seguidores jovens dentro e fora de Xangai, não usava seus ternos de corte impecável hoje. Ele vestia um casaco pesado com as cores vibrantes da delegação chinesa uma vez que ganhou o direito de acompanhar seu marido junto a equipe dele. Xichen segurou as mãos trêmulas do marido, cobrindo-as com as suas, sempre quentes, sempre seguras.
- Eles me odeiam, Xichen - sussurrou Cheng, a voz falhando, as palavras saindo arrastadas pelo cansaço emocional que nenhuma noite de sono conseguia curar. - Eu sinto o veneno no ar. Eles nem começaram a me julgar pela técnica, e já me condenaram pela minha nacionalidade. Me vaiaram. Cada vez que entro no gelo, sinto que estou patinando sobre o ódio deles.
Xichen apertou as mãos dele com firmeza, os polegares acariciando as costas das mãos de Cheng em um movimento circular hipnótico que eles haviam desenvolvido em anos de terapia e companheirismo, afinal foi assim que se conheceram, Xichen era seu psicólogo na adolescência, antes da fama de Xichen e no início da carreira de Cheng.
Ele sabia que a situação era infinitamente pior do que Jiang Cheng admitia. Como psicólogo, ele lia o desdém nas microexpressões dos juízes japoneses; como influenciador, ele via o esgoto de xenofobia que transbordava em suas redes sociais. Nas últimas noites, enquanto Cheng mergulhava em um sono inquieto e febril, Xichen passava madrugadas filtrando comentários atrozes e insultos que visavam desestabilizar o maior patinador da China em seu próprio perfil com milhões de seguidores e nos do marido também.
Eles viviam em um limbo cruel e solitário. Eram dois homens que precisaram fugir para o território neutro de Bangkok para formalizar um amor que sua própria pátria reconhecia apenas com desaprovação velada. Em Xangai, viviam sob o véu da discrição em uma sociedade conservadora onde o casamento deles era um insulto aos mais velhos e tradicionais. Aqui, em Tóquio, eram o rosto de uma potência vista com profunda desconfiança histórica. Onde, afinal, era o lar deles?
- Você não patina para a política deles, nem para os fantasmas do passado - disse Xichen, elevando o queixo de Cheng com delicadeza para que seus olhos se encontrassem. Os olhos âmbar de Xichen brilhavam com uma intensidade protetora, uma chama que nenhuma nevasca poderia apagar. - Você não patina para os juízes que já decidiram sua nota antes da música começar, nem para a multidão que espera o seu erro como se fosse uma vitória nacional. Você patina para o garoto de Yunmeng que encontrou liberdade no gelo quando o resto do mundo parecia pequeno demais para a sua alma indomável. Você patina por nós, A-Cheng.
Cheng fechou os olhos por um segundo, encostando a testa na de Xichen. O calor do marido era a única coisa real e sólida para si.
- Eu tenho medo, Xichen. Se eu falhar aqui, o que nos resta? Se o mundo nos rejeitar e eu perder a única coisa que me faz respeitado, quem seremos?
Xichen sorriu, um sorriso carregado de uma melancolia doce, mas absolutamente inabalável. - O que nos resta é o que sempre tivemos: o espaço entre o meu abraço e o seu coração. Eu estou aqui, A-Cheng. Eu sempre estarei aqui, seja no topo do pódio ou no fundo do abismo. Agora, levante-se. Mostre a eles que o fogo do homem que amo não pode ser apagado pela frieza dessas pessoas aí fora.
Jiang Cheng inspirou profundamente, o ar gelado agora preenchendo seus pulmões com uma determinação renovada, ainda que tingida de dor. Ele se levantou, a lâmina dos patins batendo no chão com um som autoritário que ecoou pelo vestiário. Ele estava pronto para a guerra. Mas sentiu-se ainda melhor depois de envolver os braços ao redor do pescoço do marido e beijá-lo ignorando a presença dos demais naquele vestiário.