A manhã despontava fria em Perth. O céu ainda estava cinzento, e as gotas de orvalho escorriam pela vidraça como pequenos fios de lembranças que o tempo insistia em deixar para trás. Alastair abriu os olhos devagar, sentindo o toque gelado do ar em contraste com o calor do corpo ao lado.
Virou-se e encontrou a silhueta de um homem adormecido, coberto até o peito. O lençol denunciava o que havia acontecido horas antes - uma noite intensa, silenciosa, marcada por um desejo que vinha sendo reprimido há semanas. A respiração calma do outro homem ecoava pelo quarto, e Alastair se pegou observando o contorno do rosto dele por tempo demais. Havia algo ali, uma calma que ele não se permitia sentir.
Suspirou fundo.
Aquele tipo de envolvimento não fazia parte da rotina de um diretor como ele. Rígido, exemplar, metódico - assim era conhecido em toda a base educacional. Alastair não podia se dar ao luxo de perder o controle, nem mesmo por algumas horas de prazer. Ainda assim, aquela noite havia sido diferente. Pela primeira vez em muito tempo, ele se sentira... humano.
Levantou-se, tentando afastar a confusão de pensamentos. O chão estava frio sob seus pés descalços, e o som da água quente no chuveiro trouxe um breve conforto. Enquanto a água caía sobre sua pele, Alastair deixou que a mente vagasse: lembranças de amores antigos, de promessas quebradas, e daquela sensação de vazio que o acompanhava todas as manhãs.
Vestiu-se com a precisão de sempre - terno alinhado, gravata no lugar, perfume discreto. Antes de sair, olhou novamente para o homem na cama. Um sorriso pequeno surgiu nos lábios de Alastair, um sorriso que carregava mais melancolia do que ternura. Ele sabia que, ao fechar a porta, aquele breve fragmento de calor também ficaria para trás.
O motor do Honda rompeu o silêncio da rua. Enquanto dirigia pelas avenidas úmidas de Perth, Alastair deixava os pensamentos correrem livres: as pilhas de papéis sobre sua mesa, os relatórios atrasados, os pais exigentes, e, entre tudo isso, a pergunta que nunca o deixava em paz - será que o amor tinha lugar na vida de um homem como ele?
Por mais que tentasse sufocar essa ideia, ela sempre voltava. Às vezes, num olhar, num toque, ou até num sonho qualquer. O amor, esse sentimento que ele acreditava ter enterrado de vez, parecia insistir em se fazer lembrado - como um fantasma gentil, que o observava das entrelinhas da rotina.
Alastair apertou o volante, o rosto sereno e o coração em silêncio. Lá fora, a cidade despertava. Dentro dele, algo começava a se mover novamente.
O vento da manhã ainda cortava o rosto quando Alastair estacionou o carro diante do imponente portão. O colégio, com suas torres de pedra e janelas em arco, mais parecia um castelo esquecido pelo tempo. As paredes antigas guardavam ecos de vozes e risadas de outras gerações, e às vezes, Alastair tinha a sensação de que o passado ainda sussurrava por ali.
Assim que atravessou o pátio principal, o som dos alunos preencheu o ar - passos apressados, risadas abafadas, cochichos sobre provas e ensaios. Era o mesmo caos organizado de todas as manhãs, mas para ele, cada passo dentro daquela escola tinha um peso diferente.
Havia dias em que o cheiro do café vindo da cantina trazia lembranças que ele preferia não ter. Outros, o eco de uma risada no corredor parecia lhe despertar uma memória que não conseguia alcançar por completo.
Era como se o colégio respirasse o passado dele - um passado que ele não tinha coragem de revisitar, mas que também nunca o deixava em paz.
Enquanto subia as escadas principais, observava os vitrais que coloriam o chão com tons de azul e dourado. Era impossível não se lembrar da primeira vez que havia entrado ali, ainda jovem, cheio de sonhos e expectativas. Tudo parecia maior, mais mágico. Agora, o mesmo cenário parecia um espelho de quem ele se tornou: rígido, reservado, intransponível.
YOU ARE READING
ABAIXO DA SUPERFÍCIE
RomanceAlastair é um diretor renomado, temido e respeitado por todos na base educacional. Frio, disciplinado e impecável em seu trabalho, ele construiu sua reputação à base da rigidez e da excelência. Mas o que ninguém imagina é que, por trás de toda essa...
