1. O Brilho Falso do Primeiro Encontro

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1. O Brilho Falso do Primeiro Encontro

O sol do Egito não era apenas uma fonte de calor; era um juiz implacável que expunha cada imperfeição, cada ruga e, no caso de Rubi, cada intenção oculta sob uma camada generosa de protetor solar de marca.

Ela estava sentada no terraço do hotel Mena House, onde a sombra das pirâmides de Gizé parecia longa o suficiente para tocar seu café expresso caro. Rubi não olhava para as pirâmides com a reverência de um historiador nem com o espanto de um místico.

Para ela, aquelas montanhas de pedra eram apenas o pano de fundo de um escritório a céu aberto - um cenário montado para a extração de capital de carteiras estrangeiras.

Rubi ajustou os óculos escuros de aro dourado. Seus cabelos ruivos - uma anomalia vibrante naquele cenário de tons terrosos - estavam presos em um coque perfeitamente desfeito, o tipo de penteado que levava quarenta minutos para parecer que fora feito em cinco.

Sua pele parda brilhava com um óleo seco que prometia um toque de seda, e seus olhos verdes, parcialmente ocultos pelas lentes escuras, escaneavam o pátio como o radar de um navio de guerra em busca de um alvo específico.

Ela não buscava amor.

Buscava liquidez.

O alvo da manhã era Bento.

Ele estava sentado a três mesas de distância, lutando com um mapa de papel que insistia em se dobrar contra sua vontade.

Bento era o protótipo do turista que Rubi adorava: vestia um chapéu de explorador novo demais para ser autêntico, uma camisa de linho que ainda mantinha as marcas das dobras da embalagem e um relógio de pulso que custava mais do que a casa média no Cairo.

Ele parecia perdido, rico e, o mais importante, ansioso por uma conexão autêntica que Rubi estava mais do que disposta a fabricar.

Rubi moveu-se com uma graça felina.

Ela não caminhava; deslizava - uma habilidade que treinara exaustivamente diante dos espelhos de hotéis menos glamourosos.

Ao passar pela mesa de Bento, permitiu que um pequeno folheto sobre a história da dinastia núbia escorregasse de sua bolsa de couro legítimo. O papel caiu exatamente sobre o mapa dele.

- Oh, mil perdões - disse ela, em um inglês com um sotaque tão vago que poderia ser de qualquer lugar entre Paris e Beirute. - O vento do deserto é um ladrão de segredos, não é mesmo?

Bento ergueu os olhos, e Rubi viu o momento exato em que a respiração dele falhou.

Ela conhecia aquele olhar: uma mistura de choque estético e a esperança patética de que uma mulher como ela pudesse realmente estar falando com um homem como ele.

- Não se preocupe - respondeu Bento, apressando-se em pegar o folheto. - Eu estava justamente tentando entender para onde esse vento sopra. Este mapa é um enigma maior do que a própria Esfinge.

Rubi sorriu, revelando dentes que eram resultado de um investimento pesado em odontologia estética.

Inclinou-se levemente, permitindo que o perfume de jasmim e sândalo invadisse o espaço pessoal de Bento.

- Mapas são para aqueles que querem ver o que todos já viram - murmurou, sentando-se na cadeira vaga sem ser convidada, mas com tanta naturalidade que Bento se sentiu honrado pela invasão. - Se você realmente quer conhecer o Egito, precisa olhar para o que o vento tenta esconder.

Bento fechou o mapa. Seus olhos agora estavam fixos nos dela.

- E você, imagino, sabe o que está escondido?

- Eu sou Rubi - disse ela, estendendo a mão de dedos longos e unhas impecáveis. - Eu mostro o Egito para pessoas que não se contentam com cartões - postais. Pessoas que entendem que o luxo não é o que se compra, mas o que se descobre.

Bento apertou a mão dela com uma força que traía seu nervosismo.

- Eu sou Bento. E confesso que estou farto de guias que recitam dados que eu poderia ler na Wikipédia.

Rubi riu - um som melódico e calculista.

Começou a falar sobre um rei antigo, um soberano núbio cuja riqueza era tão vasta que mandava polir as pedras de sua tumba com pó de diamante para que o sol, ao entrar, criasse um segundo amanhecer no subsolo.

Ela inventava detalhes com a facilidade de quem respira, misturando fragmentos de verdade histórica com mentiras sedutoras.

Enquanto conversava, observava Bento.

Ele estava fisgado.

O relógio dele brilhava ao sol, e Rubi já calculava mentalmente a porcentagem que Malik, seu contato no mercado negro, lhe daria por qualquer "relíquia" que conseguisse convencê-lo a comprar.

Mas, enquanto Rubi descrevia a opulência do rei núbio, algo estranho aconteceu.

O ar ao redor da mesa pareceu esfriar sutilmente.

O café na xícara de Rubi tremeu, formando círculos perfeitos que se expandiam e colidiam.

Um redemoinho de areia fina, surgido do nada, subiu pelo terraço e girou em torno deles, carregando um cheiro de resina antiga e terra seca que não deveria estar ali.

Rubi interrompeu a fala por um segundo.

Sentiu um arrepio na nuca - a sensação incômoda de estar sendo observada.

Não por Bento.

Mas por algo muito mais antigo e infinitamente mais crítico.

Ela olhou para as pirâmides à distância.

Por um breve instante, pareceu que as sombras das estruturas se moviam contra a direção do sol, como se estivessem se espreguiçando após um longo sono.

- Você ouviu isso? - perguntou Bento, um pouco pálido sob o chapéu de explorador.

- Ouviu o quê?

Rubi recuperou a compostura instantaneamente, descartando o desconforto como uma simples flutuação de pressão atmosférica.

- Um sussurro. Parecia... uma voz. Mas em uma língua que eu nunca ouvi.

Rubi sorriu, embora seu coração estivesse batendo um pouco mais rápido do que o normal.

- É apenas o deserto, Bento. Ele gosta de pregar peças em quem tem imaginação. É por isso que você precisa de alguém como eu: para distinguir o que é mito do que é apenas areia nos olhos.

Ela se levantou, sinalizando que a audiência gratuita havia terminado.

- Encontre-me aqui amanhã, ao amanhecer. Vou levá-lo a um lugar que não consta em nenhum guia. Mas traga sapatos confortáveis. O ouro verdadeiro está perto do asfalto.

Bento, hipnotizado, assentiu.

Rubi caminhou de volta para o interior do hotel, sentindo o peso do olhar dele em suas costas.

Estava satisfeita.

O golpe estava em andamento.

No entanto, ao passar por um grande espelho dourado no corredor, parou abruptamente.

Por um milésimo de segundo, o reflexo atrás dela não era o corredor específico do hotel, mas uma câmara de pedra escura, iluminada por tochas que não existiam.

E, no centro daquela visão, um par de olhos dourados - carregados de uma autoridade absoluta - fixou-se nos dela.

Rubi piscou.

A imagem desapareceu.

Ela tocou o próprio rosto, sentindo a pele quente.

- Preciso de menos cafeína - murmurou para si mesma, rindo da própria sugestão de vulnerabilidade.

Mas, enquanto se afastava, o som de um riso seco e profundo - como o atrito de pedras milenares - pareceu ecoar pelos canais de ar-condicionado do hotel, acompanhando-a até o elevador.

O deserto estava começando a falar.

E Rubi, em sua busca pelo ouro, não percebeu que estava prestes a se tornar o brinquedo de um rei que não aceitava ser esquecido.

A maldição de núbioStories to obsess over. Discover now