Final de tarde, sabe aqueles em que o sol vai ficando em um tom de alaranjado? Esse mesmo, eu estava ajudando minha sogra a arrumar a casa após um aniversário de criança com direito a pinhata em formato de foguete e tudo mais.
Elias, o aniversariante do dia, estava completando três anos e os meus sogros decidiram organizar uma festa surpresa, ao final do dia todos foram embora e ficamos eu, meus sogros e o meu namorado organizando as coisas.
Por volta das 20h conseguimos terminar de arrumar tudo, o caminhão da empresa Hostorn levou as mesas e demais ornamentações que compuseram a festa, e assim nos recolhemos para dentro de casa.
Os meus sogros foram dormir enquanto Hugo e eu fomos para o quarto dele, eu estava vendo videoaulas no youtube enquanto ele jogava algumas partidas de video-game.
Amor, pega um copo de água pra mim por favor, está quente demais aqui. Hugo diz se abanando.
Desci as escadas e fui na cozinha buscar a água.
Amor, você está sentindo mais alguma coisa ? Quer que eu abra as janelas? eu respondi preocupada, não fazia tanto calor assim naquele dia.
Alê, eu tô com...fal...falt...
E depois dessas palavras desmaiou no chão, foi um dos dias mais desesperadores da minha vida, liguei para a emergência e enquanto chamava eu bati na porta do quarto dos pais de Hugo, mas, não conseguia falar, estava totalmente desesperada e sem saber o que fazer porque nunca havia passado por isso, eu não sabia como ajudar e chorava muito porque na minha cabeça podia ser qualquer coisa, passamos o dia inteiro totalmente tranquilos na festa de aniversário e apesar do cansaço após a arrumação, não imaginei que alguém poderia passar mal.
Os pais dele vieram correndo pro quarto e Hugo ainda estava caído no chão, estava gelado e sua boca adquirindo uma tonalidade roxa, o meu sogro, Joca, fez algumas manobras de primeiros socorros até a ambulância chegar, a minha sogra, Lúcia, foi acompanhando na ambulância enquanto eu e o meu sogro seguimos de carro, o atendimento em hospitais particulares é bem mais rápido, nós três ficamos angustiados na sala de espera enquanto examinavam Hugo para entenderem o que de fato ocorreu.
- Ele comentou se estava sentindo alguma coisa? Desconforto ou assim? Lucia me pergunta com os olhos arregalados e com voz ofegante.
- Ele falou que estava com calor, me pediu água e eu fui buscar na cozinha. respondi ainda atordoada.
- Vamos procurar nos acalmar, pode ser que baixou a pressão por conta do "mormaço" mais cedo, se acalmem. diz Joca.
Cerca de uma hora se passa até que o Dr. Enes, o médico da família, veio nos dar um parecer, e já estávamos tão aflitos que nem conseguimos esperar sentados na recepção, ficamos indo e voltando no corredor de acesso para a sala de verificação e emergências.
- Mãe, pai, está tudo bem e já conseguimos estabilizar o Hugo, o recomendado no momento é que ele permaneça em observação... o médico faz uma pausa na fala. Me acompanhem até a minha sala para conversarmos sobre o que houve. diz e direciona o braço para o final do corredor.
Apesar de respirar aliviada no momento, notei uma expressão de preocupação no rosto do médico, eles não conseguem esconder quando algo está errado, intimamente eu acho que lidam tanto com essa corda bamba de vida, saúde, morte que já não se surpreendem em contar mais um que se aproxima dela.
Já em sua sala ele nos explica.
- Bom, como já é perceptível, Hugo está em um quadro de obesidade, ainda não o pesamos, mas com certeza isso é preocupante, não quero que interpretem o que vou dizer como cobrança e nem taxação de irresponsabilidade de vocês, mas, não pensaram que cedo ou tarde aconteceria algo do tipo? questiona o médico.
- Honestamente, não Dr., porque ele sempre foi "gordinho" desde criança, nunca teve problemas do tipo falta de ar, cansaço e coisas relacionadas. responde o pai.
- Existem outras manifestações de princípio de obesidade que talvez sejam pouco perceptíveis, então ele vai precisar urgentemente entrar em um programa de emagrecimento, é difícil dizer isso, mas o filho de vocês teve um princípio de infarto por conta do excesso de peso... dá uma breve pausa e continua. É de suma importância as informações que vou lhes passar agora, vocês vão precisar ajudar o Hugo a seguir tudo à risca.
- O meu filho pode... morrer? indaga Lúcia em tom de choro. Eu, eu vou perder o meu filho? É isso Dr? Me fala.
- Se acalma, não é bem assim. interrompe Joca tentando tranquilizar a esposa. Dr, diz o que de fato vamos precisar fazer, eu e a minha esposa estamos dispostos a fazer qualquer coisa.
Na minha cabeça só ecoava o som da voz do médico dizendo que a situação era preocupante, eu não sabia como agir, não sabia o que dizer, minha cabeça estava um caos, desde quando me mudei para Astor o Hugo era o meu porto seguro, junto de toda a sua família, eu vim sozinha para essa cidade e de repente parecia que tudo estava desabando.
Eu também posso ajudar, em qualquer coisa, eu faço o que for preciso. eu disse interrompendo o diálogo.
Em meio ao caos de saber da notícia, fiquei me perguntando sobre algumas coisas, inclusive sobre a abordagem do médico, não sei, me pareceu meio "sei lá"... Hugo ficou em observação por três dias ao todo, e assim pôde retornar para casa sob todas as recomendações e com uma dieta muito rigorosa além de vários cuidados e diários de exercícios para cumprir.
YOU ARE READING
A Parte Invisível
RomanceAlessandra acreditava que amar também era ficar. Ficar quando o outro adoece, quando os planos precisam ser adiados, quando os sonhos pessoais parecem menos urgentes do que o cuidado com quem se ama. Ao longo de seis anos de relacionamento, ela abri...
