Algumas almas não são feitas para permanecer, mas insistem em habitar a eternidade dentro de nós. Quando dois corações se recusam a ser pequenos diante de um sentimento que os transborda, o que resta?
Meus dias eram em tons de cinza, carregados de nuvens pesadas, prestes a despejar sobre mim uma tempestade de solidão. Sempre caminhei sozinho, com toneladas nas costas, o peso de ser o mais forte, por ser o mais forte. Os ventos me arrastavam para longe de qualquer beco onde pudesse me esconder. Não havia ninguém me esperando em lugar algum, ninguém me procurando com um guarda-chuva em mãos. Apenas eu e minha sombra, e a imagem terrível de um homem refletida numa poça de água suja, com pingos tremelicantes... espelhando alguém que nunca soube o que é viver e se sentir completo.
Mas está tudo bem. Eu bordei toda a minha vida afirmando que é melhor se sentir invencível e seguro do que desejado e amado.
Até que houve um dia. Um pequeno feixe de luz atravessou as nuvens pesadas, mirou sobre mim, aqueceu-me momentaneamente, um calor que começou baixo e se tornou constante nos meus dias. Toda vez que seus olhos, da cor do âmbar que acalora todo o meu ser, encontravam os meus azuis de uma manhã quieta e fria... parecia soar não-humano.
Radiante assim, eu nunca tinha me sentido. E nunca mais me senti.
Meu mundo, depois de você, nunca mais foi o mesmo. Nunca mais teve a mesma temperatura. Não sei mais distinguir as cores, se são quentes ou frias, isso não importa. O ar ganhou densidade, e é assim que sempre foi. Mas com você, até respirar me parecia fácil demais. E eu deveria saber: isso estava errado.
Sua risada, uma música que se dissolvia no ambiente. Toda vez que você estava ao redor, eu sentia o gosto metálico de "ser o mais forte" se dissolvendo em meus lábios, transformando-me apenas num estudante qualquer de dezoito anos. Por algumas horas, não precisava ser um super-herói. Não precisava me apresentar para plateia alguma, embora sempre quisesse ser a atração principal diante dos seus olhos.
Será que algum dia consegui, Suguru?
Quando você estava aqui, essas coisas, que ficam dentro de nós, se acumulam no peito, vezes aquecem, vezes explodem, tinham nome. Tentei chamá-las pelo mesmo nome, o seu nome, tantas vezes... mas nunca tem o mesmo efeito.
Palavras só têm peso quando há intenção. Quando não há nada, tornam-se frases vazias, postas ao vento para serem desfeitas. Somem. Deixam de existir para mim. E nunca vão chegar até você.
Poderia dizer que sinto saudades suas todos os dias. Mas saudade pressupõe possibilidade. E eu não tenho chance alguma de mudar algo, de sentir seu calor em mim nem que seja por minutos. Meus dedos se acostumaram com o fresco do travesseiro.
Às vezes, um cheiro parecido com café velho. Às vezes, o som de uma risada alheia. Às vezes, nada. As lembranças me alcançam, e tudo perde meio-tom, meio-sentido, como uma música desafinada, feita apenas para mim. Nunca houve briga, nem desentendimento. Mas nos perdemos.
Onde errei?
O erro foi meu?
Esse sentimento não foi grande o bastante para nos acompanhar? Ou foi grande demais, grande o bastante para nos assustar?
Será que, para você, fomos alguma coisa?
Sua presença me aquecia. Você sempre foi meu lar. E agora, não tenho mais onde morar.
Um reflexo antigo. Uma memória corporal. O mundo tinha cheiro de terra molhada, passarinhos cantavam, as flores exalavam perfume que causava frescor. Agora, tudo soa abafado. As vitórias não têm gosto. As derrotas não doem como deveriam. Viver virou um exercício mecânico, como caminhar por um lugar conhecido demais para exigir cuidado. Eu sigo, mas não pertenço mais a nada.
E você me dizia: "Você é o amor da minha vida."
Toda vez, eu me arrepiava.
Cintilava.
Acre e frágil.
Amado assim, eu nunca tinha me sentido. E nunca mais me senti.
Quando você me lia apenas com uma troca de olhares... eu sei, isso seria lendário.
Eu e você poderíamos ter transformado nossos beijos em vários pedidos de casamento.
Meus dedos subindo por seu corpo, sua voz sussurrando que me amava, foi imaginário?
Nossos planos e declarações, esse sentimento abrasador, foi temporário?
Continuamos vivos, perdendo tempo num cemitério, nunca enterrados realmente.
Não posso perder isso. Não quero deixar de lembrar. Isso é realmente necessário?
Nós... fomos desnecessários?
Um vazio assim, eu nunca tinha sentido. E passei a sentir todos os dias.
Quem iria me impedir dessa queda, quando você chegou, me puxando para uma dança em meio às chamas, dizendo que, se soubéssemos os passos, não importava? Um fantasma sagrado me chamando, me dizendo: "você é o amor da minha vida."
Eu vivi o grande amor da minha vida. E agora, sobrevivo ao que sobrou dele.
Talvez não tenha te perdido por ser insuficiente, mas por não saber como ser frágil o bastante para te fazer ficar.
Esse sentimento é o lugar seguro que deixou de existir.
Por que... por que negar o meu amor?
Te amar foi o ponto mais alto da minha vida. E te perder foi o mais longo. Foi o mais verdadeiro. E a verdade, uma vez tocada, não se apaga. Ela só se torna comparação.
Vazio assim, eu nunca tinha sentido. Mas vou sentir até o dia da minha morte.
Porque perder alguém que ainda respira é uma forma particular de morte.
E até que o ar deixe de alcançar meus pulmões, e seu nome não seja mais o motivo de meu coração pulsar; até que meus nervos não me provoquem mais dor, e meu cérebro seja apenas um órgão qualquer que não funciona, mas apenas existe... eu estarei de luto.
Você foi o amor da minha vida. E a perda de uma vida que poderia ter acontecido, Suguru.
