O espelho do banheiro devolvia para Lígia uma imagem que ela ainda estava reaprendendo a amar. Aos quarenta anos, o corpo tinha histórias e curvas que ela agora exibia com uma confiança que só tinha tido aos vinte. Ela vestia um body de lurex ultra cavado, uma hot pant que deixava as pernas torneadas a mostra e uma quantidade industrial de iluminador no colo.
- Mãe você tá absurda de de tão linda! Se eu te perder no bloco é só seguir o rastro dos corações partidos. Eugênia gritou do quarto, já devidamente montada.
Lígia riu, mas sentiu um aperto. A última vez que pensou ser livre assim, acabou descobrindo que o ex-marido levava uma vida dupla. A traição ainda ardia, ela pensou que nunca mais se sentiria assim, bonita, confiante, pronta pra vida, mas a filha não a deixou afundar.
- Bora, dona Lígia! Quarenta são os novos vinte. Você vai pro bloco, vai beber um gin tônico e vai lembrar que é um mulherão.
Lígia riu, puxando a filha pra um abraço.
- Aí filha eu sou tão grata por essa sua dedicação em me colocar pra cima.
- Eu só quero ver você feliz. Já deu tempo de ficar triste por causa dele.
Eugenia sabia que a traição do pai ainda doía em alguns cantinhos do coração da mãe, mesmo que Lígia nunca mais falasse sobre isso em voz alta.
Do outro lado da cidade, a situação era parecida, Raimundo também estava se preparando com cara de quem está indo pra um compromisso de trabalho e não pra curtir carnaval.
Ele vestiu uma camisa branca listrada de azul marinho, uma calça jeans bem cortada e deixou o cabelo grisalho que começaram a aparecer aos 38 anos - e que as amigas da irmã Tereza sempre diziam que deixava ele ainda mais charmoso. -solto, como sempre gostava.
Com seus quarenta anos, ele tinha aquele jeito descontraído e bem humorado que fazia todo mundo se sentir a vontade ao seu lado. Mas desde a separação de Clarice há um ano e meio, ele só pensava em trabalhar e cuidar da Celeste.
- Papai, se você ficar fazendo essa cara, eu vou ligar pra tia Teresa te dar sermão! brincou Celeste, sua filha de Deus dezessete anos, enquanto colocava o último acessório na seu fantasia. - O bloco é perfeito pra você relaxar um pouco. Você trabalha tanto que já esqueceu o que é se divertir.
- Eu me divirto, filha! A última vez que fui no churrasco do Juliano, chorei de rir com as piadas do Roberto sobre o carnaval.disse Raimundo, tentando se defender, mas sabendo que a filha tinha razão. A traição de Clarice havia sido um golpe duro, ele sempre foi aquele tipo de homem que acreditava que o relacionamento era pra vida toda e ver que não era o caso deixou uma marca que ainda não tinha sumido completamente.
- Ah papai, churrasco com os amigos é uma coisa, carnaval no Rio é outra! disse Celeste, dando um beijo na bochecha dele e pegando a mochila.- prometo que vai valer a pena!
O bloco Me Beija que eu sou Divorciado. ironia do destino ou apenas o senso de humor ácido das amigas, estava fervendo. O calor de 38 graus do Rio de Janeiro fazia o asfalto pulsar
O lugar estava cheio de gente vestida de cores vibrantes, com música ao vivo ecoando por todos os lados e o cheiro de algodão doce misturado com o de cerveja gelada e perfume de gente feliz. celeste e Raimundo chegaram primeiro, estacionaram o carro em uma rua lateral e logo viram Eugenia e Lígia se aproximando pela calçada oposta.
As duas meninas gritaram de alegria e correram uma pra outra, abraçando forte e já começando a falar sobre os amigos que estavam esperando por elas na roda perto do trio elétrico.
- Mãe essa é a Celeste! E esse é o pai dela, o tio Raimundo. Eugenia os presentou puxando a mãe para perto. - Já conversamos muito sobre vocês dois né Celeste?
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Amor De Carnaval
FanfictionNo carnaval tudo é liberado, inclusive conhecer um novo amor.
