Tenebrys | 01

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Ponto de vista - Alexander Lightwood


A chuva fina de Nova York escorria pelas minhas runas, apagando o suor do rosto enquanto eu mirava o beco abandonado três andares abaixo. Jace estava ao meu lado, girando a adaga de serafim entre os dedos com a calma de quem já enfrentara pior. A sincronia de parabatai entre nós vibrava no ar, afiada por anos de caçadas compartilhadas. O ar cheirava a enxofre e perigo iminente — dois demônios Ravener se contorciam entre as latas de lixo, rosnando baixo.


— Demoraram mais do que o esperado — murmurou Jace, sem tirar os olhos do alvo. — Aposto que a Isabelle já queimou os biscoitos de novo.


Eu não respondi. Meus dedos estavam tensos na corda do arco, prontos para disparar no primeiro movimento errado. Foi quando um estalo seco cortou o som da chuva.


Uma figura emergiu das sombras do beco.


Cabelos castanhos bagunçados, presos em uma trança que se desfazia nas pontas, jaqueta de couro rasgada no ombro esquerdo. Na mão direita, uma espada curta de aço escuro — não uma lâmina de serafim, algo mais antigo, que brilhava com uma luz própria que não vinha das runas comuns.


Ela avançou sem hesitar antes que eu ou Jace pudéssemos sequer nos mover.


O primeiro Ravener investiu contra ela, garras prontas para rasgar. Ela desviou-se com uma agilidade que não era humana, ergueu a mão esquerda e — para o meu choque — uma runa dourada brilhou em sua palma, nascendo de sua própria pele, sem ter sido desenhada por nenhum estilete. O demônio foi lançado para trás como se tivesse sido atingido por um trovão, batendo contra a parede de tijolos. Ela não esperou que ele se levantasse: um giro rápido, a espada atravessou o peito da criatura, que se desfez em uma nuvem de fumaça preta.


O segundo Ravener pulou, mas ela já estava pronta. A lâmina cortou o ar com um assobio, e a criatura caiu em pedaços antes de tocar o chão. Em menos de um minuto, tudo acabou.Ela limpou a espada na calça com calma e ergueu o rosto.


Nossos olhos se encontraram.


Foi um segundo apenas, mas pareceu uma eternidade. Um reconhecimento silencioso passou entre nós, como se ela já soubesse quem eu era, como se eu já devesse conhecê-la também. Ela não sorriu, não acenou — apenas fixou o olhar em mim, firme e desafiadora, antes de se virar e desaparecer novamente nas sombras do beco.


— O que foi isso? — sussurrou Jace ao meu lado, a confiança de sempre substituída por surpresa.


Eu não tive tempo de responder. O som de passos firmes subindo a escada de incêndio chegou até nós segundos depois, e ela reapareceu no terraço, parada a poucos metros de distância. A espada estava guardada na bainha nas costas, mas a energia das runas ainda pulsava ao redor dela, um zumbido que eu sentia nos ossos.


— De qual Instituto você é? — perguntei, a voz baixa, os olhos fixos na palma da sua mão esquerda, onde a runa já havia desaparecido sem deixar marca.


— Idris — respondeu ela, firme, olhos não saindo dos meus. — Família Tenebrys.


Franzi a testa, surpreso. O sobrenome era antigo, respeitado na Clave; o último Tenebrys que eu vira era um Coronel duro e inflexível.


— Tenebrys? O último que conheci era um Coronel... você é quem?


— Filha dele. — Ela endireitou a postura, deixando o peso do sobrenome cair como uma lâmina afiada. — Cecí.


Um sorriso torto e provocador lhe curvou os lábios, e eu senti um estranho aperto no peito que não era só tensão.


— Fui enviada para ser braço direito de um tal de Alec e... Jace, presumo — continuou, com uma ironia leve que não escondia a firmeza na voz. — Vocês conhecem?


Jace e eu nos entreolhamos, chocados, e estendemos as mãos juntos.


— Jace Herondale.


— Alec Lightwood.


Cecí ignorou o cumprimento. Beijou minha bochecha primeiro, depois a de Jace — um gesto antigo, reservado a famílias próximas, que eu sabia ser carregado de regras e tradições que ela parecia desprezar. Sem se afastar, enganchou-se nos nossos braços, firme e provocadora, e eu senti o choque percorrer meu corpo sob o toque dela.


Foi quando Isabelle apareceu na porta do terraço, os olhos curiosos ao ver a cena. Cecí virou-se para ela e inclinou a cabeça com o mesmo sorriso de lado.


— Oi, linda. Você deve ser Isabelle, né? Soube de você pelo Raphael, do Dumort. Acho que agora que acabei com os demônios, podemos ir para o Instituto.


Isabelle arregalou os olhos e soltou uma risada alta, incrédula.


— Uma Tenebrys que conhece submundanos? — disse, ainda rindo. — Isso é... hilário!


Jace respirou fundo ao meu lado, tentando recompor a postura confiante de sempre. Eu apenas balancei a cabeça, silencioso, mas não conseguia esconder a admiração que crescia em mim pela habilidade, rebeldia e irreverência da garota que acabara de aparecer do nada.


O vento carregava o cheiro de chuva e cinzas queimadas enquanto caminhávamos para o carro. Cecí seguia lado a lado conosco, passos firmes e seguros, sombra entre sombras, presença letal que já deixava claro: o Instituto nunca mais seria o mesmo.


Um novo relâmpago riscou o céu, refletindo nos olhos dela. Por um instante, tive a certeza de que ela trazia consigo um segredo enterrado há anos, algo que poderia desestabilizar o Clã, quebrar o laço inviolável dos parabatai e revelar verdades que o Instituto preferiu manter escondidas.


E eu, que sempre vivi pelas regras, não sabia se ela era a maior ameaça que já cruzara meu caminho... ou a resposta para perguntas que eu nem sabia que tinha.


Luzes de Éter - ShadowhuntersStories to obsess over. Discover now