Capítulo 1 - Entre a Igreja e o Mundo

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Helena aprendeu desde cedo a acreditar em Deus. Não porque a vida tivesse sido fácil, mas porque, em algum momento da infância, alguém lhe ensinou que havia um Pai no céu que cuidava de tudo. Ela cresceu com essa certeza guardada no coração, ainda que, com o passar dos anos, tenha aprendido a viver como se pudesse cuidar de tudo sozinha.

Sua vida sempre foi simples. Nunca lhe faltou o essencial, mas quase nunca sobrava. Helena aprendeu a se virar, a não pedir demais, a agradecer pelo pouco e a engolir sonhos grandes demais para a realidade que vivia. Talvez por isso tivesse desenvolvido o hábito de se adaptar, às pessoas, às situações, às expectativas alheias. Adaptar-se doía menos do que lutar.

Durante muito tempo, ela acreditou que era possível viver em dois lugares ao mesmo tempo. Aos domingos, sentava-se na igreja, ouvia a Palavra e sentia o coração aquecer por alguns instantes. Durante a semana, porém, mergulhava em um mundo que prometia felicidade rápida e vazia. Consumiu distrações, comparações, desejos que não vinham de Deus. Não por rebeldia, mas por cansaço.

Helena tinha fé. Mas uma fé cansada.

Seu relacionamento refletia exatamente isso. Não era um amor ruim, apenas incompleto. Não havia violência, nem traições, nem grandes dramas. Havia silêncio. Planos que não incluíam oração. Decisões tomadas sem perguntar a Deus. Conversas que nunca iam fundo. Ela se perguntava, sozinha, se aquele amor a aproximava do propósito ou apenas a mantinha segura demais para arriscar.

À noite, quando tudo se aquietava, Helena sentia o peso do dia cair sobre o peito. Um cansaço que não vinha do corpo, mas da alma. Ela lembrava-se de quem tinha sido, de quem ainda sonhava ser, e do espaço entre essas duas versões. Às vezes, tentava ignorar. Outras, chorava sem saber exatamente por quê.

Naquela noite, o quarto estava em silêncio. A luz do celular iluminava o rosto cansado enquanto ela rolava a tela, buscando algo que não sabia nomear. De repente, sentiu vergonha de si mesma. Vergonha por falar tanto com o mundo e tão pouco com Deus.

Ajoelhou-se ao lado da cama. Não para impressionar, nem para cumprir um ritual, mas porque não sabia mais o que fazer. Sua voz saiu baixa, quase um sussurro:

— Deus… eu ainda creio. Mas estou perdida. O Senhor ainda me escuta?

Nenhum sinal. Nenhuma resposta imediata. Apenas o silêncio.

Helena se deitou achando que aquela oração tinha se perdido no ar. Não sabia que, naquele exato momento, Deus começava a desmontar tudo o que não vinha d’Ele. Não para destruí-la, mas para reconstruí-la.

Porque, mesmo quando ela esqueceu de escutar, Deus nunca deixou de ouvir.

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⏰ Last updated: Feb 02 ⏰

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