capitulo 1.

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Kim Minjeong.

Meus dedos deslizaram sem rumo pelas cordas da guitarra, um movimento mecânico, enquanto minha mente insistia em uma melodia que eu nem queria terminar. Eu estava entediada. Na verdade, fazia tempo que eu não me sentia viva. Sem festas, sem excessos, sem o toque de ninguém.

O brilho súbito do celular cortou a penumbra do quarto. Era a Giselle: 'Vamo na festa da Ning, vai ser babado. Se arruma, passo aí às 19:00'.

Abandonei o instrumento de lado. No banheiro, encarei meu reflexo com uma determinação que não sentia há semanas. Eu não estava me arrumando para uma festa; estava me preparando para um campo de batalha. Escolhi um top preto com uma saia revestida de renda preta também e coloquei uma blusa de ziper meio cinza, fiz uma maquiagem leve, mas características.

Eu precisava parecer intocável, mas também tocável para quem eu quisesse faz tanto tempo que não saia, que para mim era o evento.

​Às 19:00, Giselle estacionou fazendo um barulho desnecessário. Entrei no carro e o cheiro de perfume doce dela tomou conta do espaço.
— Você está com cara de quem vai cometer um crime — Giselle comentou, rindo enquanto acelerava.
— Talvez eu vá — respondi, olhando as luzes da cidade passarem como borrões de neon pela janela. — Só preciso de algo que me faça esquecer esse silêncio do meu quarto.

​A cobertura da NingNing estava um caos controlado. A batida do baixo era tão profunda que vibrava no meu estômago, misturando-se com o calor das luzes roxas. Giselle se perdeu entre os convidados em segundos, deixando-me sozinha com meus pensamentos.

Eu caminhava em direção à varanda, buscando um pouco de ar, quando parei bruscamente.

Lá estava ela. Karina.

Ela estava encostada na mureta de vidro, a silhueta emoldurada pelo horizonte iluminado de Seul. Usava um conjunto de alfaiataria que parecia caro demais para aquele ambiente, mas nela, parecia apenas o uniforme de quem manda no lugar.

Como se sentisse meu olhar, ela virou o rosto devagar. Um sorriso de canto de boca surgiu em seus lábios — aquele sorriso que sempre me fazia questionar se ela sabia exatamente o que eu sentia.

​​— Você veio — ela disse, sua voz cortando o barulho da festa com uma facilidade assustadora enquanto se aproximava. — Achei que fosse ficar no seu quarto.

— Eu sei que ficaria decepcionada se não viesse — Eu sorri ironicamente.

— Já que está aqui vamos dançar — Antes que pudesse recusar com aceitar ela me puxou para fora da varanda.

Ela me guiou até o andar de baixo, onde a música alta e frenética dava lugar a um ritmo arrastado, carregado de sintetizadores — o tipo de melodia que parecia vibrar diretamente sob a pele.

Karina se virou, envolvendo meu pescoço com os braços sem pedir permissão. Por puro instinto, minhas mãos encontraram o caminho de sua cintura, sentindo o calor do corpo dela através do tecido fino.

Suas bochechas tinham um rubor leve, mas o olhar que ela fixava no meu era lúcido até demais, cortante como vidro.

— Você... ainda está solteira? — Ela inclinou a cabeça, um fio de voz desafiador escapando entre nós. — Porque, se estiver, não vejo problema nenhum em me beijar agora, vê?

Soltei uma risada soprada, tentando manter a guarda alta enquanto meu coração martelava contra as costelas.

— Bebeu demais, Karina? Hoje cedo na escola você nem suportava respirar o mesmo ar que eu.

— Talvez — ela murmurou, a distância entre nós desaparecendo. — Ou talvez eu só tenha cansado de fingir.

Antes que eu pudesse formular qualquer resposta ácida, ela me beijou. Foi um choque térmico; o contraste entre a frieza das nossas discussões diárias e o calor daquele contato. No início, foi um beijo de provocação, quase uma disputa de poder, mas rapidamente a raiva se dissolveu em algo muito mais profundo e urgente.

Correspondi segurando-a com mais força, sentindo o mundo ao redor — a música, as pessoas, as luzes de neon — desaparecer por completo.

Quando nos separamos, o silêncio entre nós era mais barulhento que a própria festa. Karina me encarou por alguns segundos, recuperando o fôlego, com um brilho vitorioso e confuso nos olhos. Sem dizer uma palavra, ela apenas ajeitou minha jaqueta e se afastou, desaparecendo na multidão e me deixando ali, parada, com o gosto dela ainda nos lábios e a certeza de que nada na manhã seguinte seria igual.

Midnight PatternsWhere stories live. Discover now