A noite em que inflei minha tia Marge começou como tantas outras na casa dos Dursley: com silêncio forçado, olhares de reprovação e a sensação constante de que eu ocupava um espaço que nunca fora destinado a mim. As palavras dela — venenosas, calculadas — ainda ecoavam quando perdi o controle. O estouro foi rápido, mágico, inevitável. E, no instante seguinte, eu soube: não haveria retorno.
Não esperei por pedidos de desculpa ou por explicações. Arrumei o pouco que era meu, joguei a mochila nas costas e atravessei a porta antes que o medo pudesse me alcançar. A rua estava vazia, o ar pesado, e o ônibus Nôitibus Andante surgiu quase como uma confirmação de que o mundo bruxo ainda me observava. Quando desci, horas depois, o céu de Londres começava a clarear.
O Caldeirão Furado me recebeu com olhares curiosos, mas nenhum julgamento. Ali, pela primeira vez em muito tempo, senti algo próximo de alívio. Ainda assim, não era descanso o que eu procurava — era respostas. Havia uma inquietação antiga em mim, uma sensação de que eu não conhecia toda a extensão do que era… ou do que poderia me tornar.
Na manhã seguinte, sob uma garoa fina, segui para Gringotes.
Desde criança, o banco sempre me parecera imponente, mas naquele dia havia algo diferente. As runas gravadas nas colunas pareciam mais nítidas. O ar vibrava, como se reconhecesse minha presença. Assim que atravessei as portas, vários olhares se voltaram para mim — não de surpresa, mas de expectativa.
Um duende aproximou-se. Alto para os padrões da espécie, olhos escuros e atentos demais.
— Nome? — perguntou, direto.
— Harry Potter.
Ele inclinou a cabeça levemente.
— E o que deseja, senhor Potter?
— Acesso ao cofre da família Potter.
— A chave?
— Não tenho.
O duende me analisou por um longo segundo, então sorriu — um sorriso fino, perigoso.
— Nesse caso, propomos um teste de sangue para comprovação de identidade e herança.
Assenti sem hesitar.
Fui conduzido a uma sala privada. Um pergaminho antigo foi estendido sobre a mesa, e uma pequena lâmina prateada apareceu nas mãos do duende. Um corte rápido no meu dedo, uma gota de sangue tocando o papel — e então tudo mudou.
O pergaminho absorveu o sangue e escureceu, tornando-se negro como o céu antes de uma tempestade. Runas começaram a surgir sozinhas, brilhando em prata viva.
O duende endireitou a postura.
— Interessante… — murmurou.
As palavras se formaram lentamente, claras e inegáveis:
Casa Potter — Herdeiro reconhecido.
Antes que eu pudesse respirar aliviado, novas linhas surgiram.
Casa Peverell — Herdeiro Primário.
Meu coração acelerou.
— Peverell? — repeti.
— Uma herança antiga — explicou o duende, a voz agora carregada de respeito. — Ouro, propriedades, artefatos… e sangue.
O pergaminho brilhou mais intensamente.
Sangue de Criatura — Elfo Negro.
O impacto foi físico. Uma corrente percorreu meu corpo, despertando algo que sempre esteve adormecido. Tudo fez sentido: a sensação de diferença, o controle instintivo da magia, a sombra elegante que sempre me acompanhara.
Então, a última revelação.
Pacto de Companheiro — Ativo.
Engoli em seco.
— Quem… quem é meu companheiro?
O duende recolheu o pergaminho com cuidado.
— Quando se encontrarem, senhor Potter, você saberá. O sangue reconhece antes da mente.
Recebi dois anéis: o da Casa Potter e o da Casa Peverell. Ao colocá-los, senti o poder se ajustar a mim como algo que sempre me pertenceu.
Saí de Gringotes diferente.
Mais inteiro.
Foi então que o senti.
Uma presença.
Levantei os olhos e o vi do outro lado da rua.
Draco Malfoy.
Encostado a uma vitrine, impecável mesmo sob a chuva, observava-me com atenção excessiva. No instante em que nossos olhares se cruzaram, algo respondeu dentro de mim. O anel aqueceu levemente. Reconhecimento.
Draco franziu o cenho, o corpo ficando tenso.
— Potter — disse, baixo. — Você… mudou.
— Talvez — respondi. — Ou talvez você nunca tenha realmente olhado.
Ele deu um passo à frente, os olhos descendo rapidamente para minha mão antes de voltar ao meu rosto.
— Não gosto de mudanças.
— Algumas não pedem permissão.
O silêncio entre nós se tornou denso demais. Quando nossas mãos se tocaram por um breve instante, o mundo pareceu prender a respiração. O toque foi rápido — mas profundo.
Draco se afastou primeiro.
— Cuidado, Potter — murmurou. — Algumas coisas, quando começam, não param mais.
Observei-o partir, o sangue ainda vibrando.
Ele estava certo.
O jogo havia começado.
E desta vez, eu não seria um peão.
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Entre a Noite e o Fogo- parte I : A Semente
FanfictionAntes da guerra. Antes das coroas. Antes de o mundo mágico ruir e se reconstruir. Tudo começa em um verão silencioso, antes do terceiro ano em Hogwarts. Harry Potter retorna à escola sentindo que algo em si está mudando - algo antigo, profundo e inq...
