L + M

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-2026

São Paulo acordou nublada de novo. O relógio digital da sala marcava 6:39, com aqueles números vermelhos irritantes brilhando, denunciando que a manhã já tinha começado. Eu nunca achei aquele relógio necessário, na verdade, detestava, mas fui praticamente coagida a comprá-lo entre gritos, risadas e um insistente "mas é tão fofo!" da minha namorada. Tudo isso só porque ele tinha o formato de um cachorrinho. Agora lá estava ele, me encarando, cúmplice de merda do fim das férias.

O silêncio da madrugada não existia mais. Barulhos de construção vinham de algum prédio próximo: marteladas secas, metal batendo em metal, um caos organizado que São Paulo parecia produzir com naturalidade. Como se não bastasse, um gato lambia minha mão com dedicação excessiva, a língua áspera passando pela minha pele como um despertador biológico. Engraçado como, dias atrás, eu achava aquilo fofo. Hoje parecia que ele só queria tirar sarro de mim, como se dissesse: "haha, eu posso continuar na minha cama quentinha enquanto você vai ter que passar o dia ouvindo estudante de medicina explicando que tal autor é o mestre absoluto da medicina, que é impossível uma biblioteca minimamente decente não ter aquele livro, ou te olhando por cima dos óculos pra perguntar se você 'tem certeza' de onde fica a seção."

Eu odeio segundas.

Renata dormia atravessada sobre mim, as pernas jogadas por cima do meu corpo, completamente alheia ao mundo. Ela estava deitada para o outro lado do sofá, respirando fundo, pesada de sono. As férias tinham acabado hoje, e só de pensar nisso meu peito apertava. Eu não estava pronta nem um pouco.

Peguei o celular quase por reflexo. A luz da tela me fez semicerrar os olhos, uma fraqueza imediata. Mesmo com as cortinas abertas, a claridade do dia mal se fazia presente; o sol parecia ter desistido de aparecer, escondido atrás das nuvens grossas que deixavam o apartamento num tom acinzentado, melancólico. A sala cheirava a café velho, sofá usado, maconha e tutti frutti.
Fiquei ali, imóvel, com um gato me adotando à força, uma namorada quente demais em cima de mim, o relógio-cachorro marcando o tempo que eu queria ignorar, e a cidade inteira acordando lá fora. Tudo indicava que o dia tinha começado. Eu só ainda não tinha concordado com isso.

Me rendi.

Levantei devagar, com o cuidado de quem desarma uma bomba, tirando Renata de cima de mim aos poucos para não acordá-la. Ajustei as pernas dela no sofá e só então percebi  e ri baixo  que suas meias eram estampadas com cachorros-quentes bebendo cerveja, felizes, despreocupados, vivendo uma realidade que claramente não era a minha. Pelo menos alguma coisa ainda conseguia arrancar uma risada logo cedo.

Peguei meu celular, que quase escorregou da minha mão. A culpa era daquela capinha de silicone liso, bonita e completamente antipática às seis da manhã. Meus dedos ainda meio dormentes dedilhavam a tela com raiva, tensos entre não deixar o aparelho cair e não arremessá-lo contra a parede. As pontas dos dedos até ardiam de tanto segurar com força demais.

No banheiro, o choque térmico foi imediato. O vaso estava gelado, minha bunda ainda quente, minha cabeça latejando, e eu me sentei ali como quem aceita a morte. Os dedos começaram a correr pela tela em busca de qualquer coisa que me distraísse, qualquer coisa que não fosse pensar no horário.

Notícias pipocavam sem piedade: BBB com participante que quase levou um soco dentro da casa, gente desaparecida há semanas, idosos sendo inconvenientes em transporte público, em filas de banco, em comentários de rede social, políticos falando absurdos como se fosse normal, tragédias empilhadas em manchetes curtas. Minha cabeça era bombardeada por informação antes mesmo do café.
Ficar no X era um hábito diário. Meu jornal matinal. Meu erro consciente.

Puta que pariu como eu odeio acordar cedo
Deslizei os dedos para a direita, continuando a rolar a tela para cima, já anestesiada, até que uma nova notificação fez o celular vibrar de repente.

L+MOù les histoires vivent. Découvrez maintenant