o sangue que ferve

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NARRADOR

Eu cresci ouvindo sussurros sobre ela. Diziam que, no topo do Monte Olimpo, existia uma mulher que não se curvava, que chamava os donos do universo por apelidos de família enquanto o resto da criação tremia aos seus pés.
Eles a chamavam de Arabela

A semideusa da guerra louca
A Comandante
A amante de hermes

Naquela manhã, no auge dos seus vinte e três anos, o Olimpo parecia pequeno para o seu tédio. Ela não via os deuses como ídolos de mármore; via-os como tios barulhentos, avôs ranzinzas e, acima de tudo, via seu pai como o único mestre legítimo.

- Você está distraída, Arabela. - A voz de Hermes ecoou pelas colunas, o som de suas sandálias aladas batendo no chão como o coração de um pássaro.

Arabela não interrompeu o movimento da espada. O metal cortava o ar com um assobio mortal.

- O café da manhã estava ruim, Hermes? - ela perguntou, sem olhar para trás. - Você está voando mais baixo hoje. Perdeu o fôlego ou só veio fofocar as ordens do Vovô?

O deus mensageiro pousou, soltando uma risadinha. Apenas Arabela tinha a audácia de tratar o mensageiro dos deuses como um parente que trazia notícias irrelevantes de domingo.

-O seu Vovô Zeus está de bom humor, se é o que quer saber. Mas a "Coruja" está lá em cima estragando o clima. Ela está convencendo o Grande Trovão de que suas táticas na Trácia foram... bárbaras.

Arabela cravou a ponta da lâmina no solo, virando-se com um olhar que queimava.

- Bárbaras? - Ela limpou o suor da testa com as costas da mão bronzeada. - Aquela mulher não sabe a diferença entre uma guerra e um debate na Ágora. Papai me ensinou que o campo de batalha não é lugar para retórica. Se ela quer sutileza, que vá tecer tapetes com as ninfas.

Ela guardou a espada na bainha e caminhou em direção ao Grande Salão. Arabela não pedia audiência; ela simplesmente entrava.

Pelo caminho, cruzou com Tia Deméter, que cuidava de alguns jardins suspensos.

-Sua Benção, Tia - disse Arabela, passando direto, sem diminuir o passo.

- Que a terra te sustente, pequena fera - respondeu a deusa da agricultura, com um suspiro de quem já aceitara a insolência da sobrinha.

Ao cruzar os portões de ouro, Arabela encontrou a cena que mais odiava. Zeus estava sentado em seu trono, massageando as têmporas, enquanto uma figura de armadura polida e olhar calculista discursava sobre mapas de pergaminho.

- Ah, a minha menina chegou! - A voz de Ares trovejou. Ele se levantou do trono de ferro, os olhos brilhando com o fogo do combate. - Venha aqui, Arabela. Diga a eles como você esmagou a resistência inimiga antes mesmo do sol nascer.

Arabela caminhou até o centro do salão. Ela ignorou a aura de poder que emanava do trono principal.

- Oi, Papai - ela disse, dando um sorriso de canto para o Deus da Guerra. Depois, olhou para o topo do estrado. - Vovô, espero que o senhor não esteja ouvindo essas bobagens de novo. O senhor sabe que se eu tivesse seguido os planos dela, ainda estaríamos montando acampamento na base da montanha.

A figura de armadura se virou. O olhar de Atena era como o frio do inverno profundo.

- A estratégia exige paciência, Arabela - disse a deusa, a voz perfeitamente modulada. - Algo que seu pai nunca lhe ensinou, e que sua natureza mortal parece ser incapaz de processar.

O clima no salão mudou instantaneamente. Arabela deu um passo à frente, e o som de suas botas de ferro batendo no mármore soou como um tambor de guerra. O sorriso desapareceu.

- Escute bem, Atena - Arabela pronunciou o nome da deusa com um desprezo que nenhuma outra palavra carregava. Não havia "tia", não havia carinho, apenas o veneno da rejeição. - Você se esconde atrás de escudos e provérbios. Você chama isso de "guerra estratégica", mas é apenas covardia com um nome mais bonito. Para mim, e para os homens que lidero, a única divindade que entende o que acontece quando o sangue toca a terra é Ares. O resto de vocês... é apenas audiência.

- Você fala com uma autoridade que não lhe pertence, semideusa - sibilou Atena.

- Eu falo com a autoridade de quem comanda os seus exércitos enquanto você decide qual cor de pluma fica melhor no seu elmo - rebateu Arabela, olhando então para Zeus. - Vovô, se o senhor quiser que eu conquiste o que falta, deixe-me trabalhar. Se quiser que eu perca tempo ouvindo os sermões de Atena, então mande a sua "filha preferida" para a lama. Vamos ver quanto tempo a sabedoria dela dura quando o aço de um inimigo estiver buscando o pescoço dela.

Ares soltou uma gargalhada selvagem, batendo a mão no próprio peito.

- Ela é minha! - gritou ele para o salão. - Sangue do meu sangue!

Arabela não sorriu de volta para o pai. Ela apenas manteve o olhar fixo em Atena, um desafio mudo que dizia: Este lugar pode ser seu por direito divino, mas o comando é meu por conquista.

NARRADOR

Eu fecho os olhos e consigo sentir esse mesmo fogo. Essa recusa em aceitar a autoridade de quem nunca sangrou. Dizem que o tempo apaga tudo, mas o ódio dela por Atena e aquela intimidade audaciosa com os deuses sobreviveram em mim.
O Olimpo pensou que Arabela era apenas uma ferramenta. Eles não perceberam que, ao dar a ela a chave da casa e o comando da espada, estavam criando a própria destruição.


DEUSA Arabela

DEUSA Arabela

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Onde a Guerra Encontra a Insanidade.Histórias para pegar e não largar. Descubra agora