O sinal do meio-dia tocou como uma pequena explosão de liberdade. As portas das salas de aula se abriram com um misto de pressa e alívio, e os corredores do Colégio Cold Hollow High se encheram rapidamente de vozes, passos apressados e o tilintar de mochilas sendo arrastadas ou jogadas sobre os ombros.
No refeitório, o ruído aumentava a cada minuto. Grupos já se formavam automaticamente, cada aluno seguindo o trajeto invisível que o instinto social traçava. Os atletas ocupavam uma das alas centrais, onde as mesas permitiam que se espalhassem com espaço para bandejas, mochilas e cotovelos largos. Entre eles, Mark Tallbull era o mais fácil de notar, não por sua altura incomum ou o físico definido, mas pela forma como todos pareciam girar ao seu redor. Risadas ecoavam após comentários seus, cumprimentos vinham de alunos que sequer sabiam seu sobrenome.
— Ei, Tallbull! Sexta-feira, a gente vai acabar com os Bears, hein? — gritou um calouro do time reserva, com mais empolgação do que certeza.
Mark respondeu com um aceno educado e um sorriso discreto, antes de se sentar no canto de uma das mesas. Por mais que gostasse do futebol, das vitórias e da adrenalina do jogo, havia uma parte de tudo aquilo que o deixava exausto. As pessoas pareciam ver nele só um dos astros jogadores, só o corpo forte, só parte do grupo de heróis escolares. Raramente alguém queria saber o que ele pensava — e quando queriam, geralmente era para saber se ele achava que a final do campeonato seria no campo da cidade ou fora dela. Os segredos que as circunstâncias o obrigavam a carregar pesavam em seu peito, e o impediam de se conectar de verdade com quase qualquer um de seus colegas.
Do outro lado da escola, onde as vozes ecoavam menos e o ritmo era mais suave, Arielle Briarose saía da biblioteca com uma pasta recheada de anotações, rabiscos de cenários e um esboço de cronograma para a próxima montagem teatral. A peça ainda não tinha título — ela ainda estava entre três possibilidades — mas os personagens já existiam em sua mente como velhos amigos. Sua cabeça estava sempre alguns passos à frente do presente, organizando falas, reações, posicionamentos de cena. Ela também não conseguia se aproximar verdadeiramente de outros colegas como era com Nina, sua melhor amiga, que por acaso era uma das atrizes de mais destaque no clube de teatro apesar de nunca ter tido o papel principal até agora.
Ela caminhava em direção ao jardim lateral do colégio, onde geralmente almoçava longe do barulho dos outros grupos. Algumas vezes acompanhada por um ou outro colega do clube de teatro, outras tantas sozinha. Hoje, estava só. E preferia assim, de certa forma.
Entre as árvores e bancos de pedra que margeavam o pátio interno, a sombra convidativa de um carvalho antigo oferecia o refúgio ideal. Sentou-se com uma expressão serena, tirou um sanduíche da bolsa térmica e abriu sua pasta, mas não começou a comer de imediato. Estava ainda tentando se decidir sobre qual dos três roteiros ela gostava mais.
Na sala dos treinadores, Mark observava pela janela o mesmo jardim onde Arielle já se acomodava. Ele nunca tinha parado para prestar atenção nela diretamente, mas sabia quem era. Era difícil não saber. A garota ruiva do teatro, que sempre tinha um ar de quem estava em outro mundo. Ele já ouvira falar dela — não coisas ruins, só... distantes. Para muitos, ela parecia um pouco enigmática demais. Para Mark, parecia interessante.
A conversa havia perdido qualquer utilidade prática minutos atrás. O treinador assistente falava animadamente sobre as estatísticas da temporada anterior, comparando jogadas, comentando a possível escalação da equipe adversária. Alguns dos jogadores tentavam manter a atenção — Mark não era um deles.
A janela ao lado oferecia uma visão mais interessante. Lá fora, o carvalho projetava sombras delicadas sobre o banco de pedra, e logo ali, sentada de lado, com uma pasta aberta sobre o colo e o sanduíche ainda intocado ao lado, estava ela. Seu cabelo ruivo parecia brilhar mesmo na penumbra das folhas, como uma fogueira acesa em silêncio. Arielle parecia... em paz. Alheia à agitação da escola, ao calor do refeitório, ao burburinho que cercava seus colegas. Aquela quietude chamou Mark de um jeito que nem ele soube explicar.
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Cold Hollow
RomanceNa cidadezinha de Cold Hollow, no estado de Nova York, próxima à fronteira com o Canadá, a vida de dois adolescentes está prestes a mudar: Arielle Briarose e Mark Tallbull. Vindos de mundos completamente diferentes, com ela sendo uma menina rica e f...
