A sensação do calor ainda o envolvia mesmo depois de dias após a queda. Não apenas o calor, mas a grande dor de cabeça que sentia no momento o impedia de se mexer, embora se esforçasse para abrir os olhos. Parecia uma má ideia, já que a dor tornou-se insuportável de repente, só restou a ele ficar quieto, imóvel, torcendo para que aquele aparente pesadelo acabasse.
-Você continua teimoso - uma voz conhecida falou, não tão distante, mas também não tão perto.
-O que foi que fez comigo? - Quaritch demandou, ainda com poucas forças.
-Dessa vez, nada - admitiu Varang - você mesmo que tomou uma decisão tola, e talvez eu seja tola, de tê-lo trazido até aqui, talvez fosse melhor ter te entregado à morte.
-Não, docinho, se você me salvou, eu te agradeço - ele tateou para frente, procurando o braço dela.
-Você me deve sua vida - ela concordou, esticando o braço, deixando que ele a tocasse - mas há mais coisas que me deve...
-Dependendo do que te devo, eu posso pagar - ele sorriu com empolgação, conseguindo abrir os olhos agora, focando na figura dela.
Varang estava diferente, derrotada, era a palavra que a definia. Sem sua pintura habitual, sem a postura arrogante e ereta, encolhida, exigente, olhar questionador. Ele sabia exatamente o que significava, a derrota, a culpa, a dor, vinham dele.
Ela estava decepcionada, em certo nível, com ela mesma. Jurou que o usaria para seus próprios benefícios, mas depois de ter concordado em se tornar uma aliada do povo do céu, só encontrou derrota e desgraça. Olhar para Quaritch a fazia se lembrar disso.
-Me juntar ao povo do céu foi a pior decisão que tomei - ela confessou - o seu povo nos vê de forma inferior, como qualquer outro na'vi, não fazemos diferença pra eles, eu não sei o que pretende, mas nossa aliança acaba por aqui.
-Eu concordo com você - disse Quaritch, e as palavras dele foram um gatilho para que ela se munisse com a faca mais próxima.
-Não ouse tentar nada contra mim - ela avisou, um pouco da sua postura de guerreira voltando.
-Não foi isso que eu quis dizer - ele empurrou a faca devagar, para longe do seu pescoço, e assim, ela cedeu um pouco - à essa altura, a RDA me quer morto, eu sou um peso morto pra eles, um verdadeiro fracasso, eu tinha outra proposta pra você.
-E o que é? - ela respondeu irritada, mas curiosa.
-Vamos pra longe, fugir disso tudo, deixar isso tudo pra trás e... - ele fez uma pausa - se o povo do céu vir atrás de nós, nós atacamos primeiro.
-Me parece um bom plano - Varang sorriu em concordância, o que era um bom sinal para o coronel.
Mesmo tendo em mente que estava decepcionada com a RDA, Varang precisava admitir que Quaritch tinha lá seu valor para ela.
Era um fato conhecido que o coronel era uma das poucas pessoas que a entendiam, sua ambição, seu impetuosidade, seu desejo de vingança. Além disso, tinha se apegado a ele, era mais que um servo, tinha realmente se tornado seu igual e alguém, no mínimo, precioso para ela.
Por isso ela se ocupava agora com os tratamentos de suas feridas, queria vê-lo bem disposto e de pé em breve, caso precisassem lutar, o que ela sabia que era iminente.
Miles, por sua vez, acordava de outro cochilo. Tinham se tornado irregulares desde o começo de seu tratamento. Não eram só as ervas que o deixavam atordoado, mas também as lembranças de todo o conflito. A maneira como Ardmore e Selfridge o tinham tratado, as palavras de Jake Sully, toda a conversa de ver como os na'vi. Sua mente rígida e bruta queria deixar toda aquela baboseira de lado. Se tinha algo a que se agarrar no momento, era a mulher que se materializava lentamente em sua visão.
Ao perceber a movimentação do amado, Varang se aproximou.
-Você ainda precisa descansar - ela pôs uma mão no peito dele com uma delicadeza atípica, o impedindo de se mexer bruscamente.
-Tá, pode ser, mas tô cansado de ficar aqui, não posso nem dar uma volta? Você deve concordar que vai ser bom me exercitar um pouco - ele tentou argumentar.
-Não está errado, Quaritch - ela virou a cabeça para o lado lentamente, um sorriso perigoso se formando em seus lábios na mesma velocidade - eu preciso fazer uma patrulha antes, sabe que perdi muitos homens na batalha, eu mesma preciso fazer o trabalho dos meus batedores.
Relembrar daquele fato o deixou levemente amargurado.
-Tome cuidado - ele desejou.
-Você também - ela pediu - vou sair com você para sua caminhada, assim que voltar.
Ela o beijou rapidamente e então saiu, sem antes olhá-lo uma vez por cima do ombro.
N/A.: Bom, depois de alguns meses fora, estou de volta. Aconteceram algumas coisas na minha vida e ainda estava conciliando tudo. (Eu sou professora e começos de ano são complicados justamente por causa de adaptação e tudo mais. Além do fato de ter meu diagnóstico de autismo e ansiedade fechado. Não se preocupem, estou bem.) Senti falta de escrever, que é um hobby que sempre me ajudou a relaxar um pouco e Quaritch e Varang são um dos meus casais preferidos e agora, depois do filme e de vê-los interagindo, a inspiração bateu. Continuo postando uma vez por semana, agora aos domingos. Espero que fiquem por aqui mais uma vez, obrigada!
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Pelo Caminho Errante
FanfictionUma das coisas que Quaritch e Varang tinham em comum, além de sua ambição e falta de escrúpulos, era estarem completamente perdidos. Depois de serem derrotados na última batalha, eles decidem juntar os restos que tem e seguir em frente.
