Michael:
Eu a vi numa tarde comum, dessas em que a praça parece só um lugar de passagem. Estava sentada perto da fonte, o cabelo preto caindo liso pelas costas, os olhos verdes atentos a algo que eu não conseguia ver. Talvez um pensamento distante, talvez ninguém em especial. Só sei que, quando nossos olhares quase se cruzaram, senti uma coisa estranha, como se eu tivesse perdido algo que nunca foi meu.
Voltei para casa com a imagem dela grudada na cabeça. No dia seguinte, passei pela praça "sem querer". No outro também. Comecei a notar padrões: o horário em que aparecia, o banco preferido, o livro que carregava debaixo do braço. Não era amor, eu dizia a mim mesmo. Era curiosidade. Era destino tentando se explicar.
A curiosidade virou urgência. Descobri o nome dela perguntando a alguém que a conhecia "de vista". Depois, uma rede social aqui, uma marcação ali. Fotos antigas. Comentários de amigos. Uma formatura. Uma viagem. Um luto silencioso escondido entre legendas felizes. Metade de uma vida organizada numa linha do tempo que não era minha — e que eu não tinha o direito de percorrer.
Quando finalmente criei coragem para falar com ela, minhas mãos tremiam. A praça estava cheia, o sol se pondo. Fingi casualidade.
— Oi... a gente se vê sempre por aqui, né?
Ela sorriu, educada, desconfiada. Conversamos sobre o clima, sobre o livro, sobre a fonte que nunca funcionava direito. Em nenhum momento deixei escapar que eu já sabia da cidade onde cresceu, do sonho que abandonou, da música que escutava quando estava triste. Convidei-a para um café, e ela aceitou depois de pensar um pouco.
Enquanto caminhávamos para fora da praça, senti um peso no peito. Eu tinha encontrado o que procurava, mas a que custo? Ela ria, contando algo simples do dia, sem saber que eu carregava segredos que não me pertenciam. Naquele momento, entendi que gostar de alguém não dá permissão para invadir. Mas aliás, gostar não é invadir, não é mesmo?
E decidi, ali mesmo, que se houvesse um segundo encontro, eu começaria do zero. Sem arquivos mentais, sem pesquisas noturnas, sem obsessão disfarçada de interesse. Porque ninguém merece ser amado como um mistério resolvido — e sim como uma história que escolhe, livremente, ser contada.
...
O café ficava na esquina da praça, pequeno e aconchegante, com mesas de madeira e cheiro constante de pão quente. Eles entraram rindo de algo bobo sobre o vento bagunçar o cabelo das pessoas — e aquilo, tão simples, já quebrou um pouco da tensão.
Sentaram perto da janela. Ela pediu café com leite, ele, expresso. Um silêncio curto se formou, mas não era desconfortável. Era aquele tipo de pausa que parece convidar a conversa, não afastá-la.
— Você sempre lê na praça — ele comentou, apontando para o livro em cima da mesa. — É tipo um ritual?
Ela sorriu, agora mais à vontade.
— É. Ajuda a organizar a cabeça. Em casa sempre tem barulho demais.
Ele riu, concordando, e contou que ia à praça porque precisava de um lugar onde ninguém esperava nada dele. A conversa começou a fluir assim, de pequenas confissões que não assustam. Falaram sobre livros que abandonaram no meio, filmes ruins que amaram mesmo assim, músicas que marcam fases da vida sem pedir permissão.
Ela gesticulava bastante quando se empolgava. Ele reparou — e, dessa vez, não por já saber algo, mas porque estava ali, presente. Quando ela falava dos planos para o futuro, os olhos verdes pareciam mais claros. Quando falava de dúvidas, a voz diminuía um pouco. Tudo era novo, mesmo para quem achava que já conhecia demais.
— Engraçado — ela disse, mexendo no copo. — Parece que a gente se conhece há mais tempo do que hoje.
Ele sentiu um aperto breve no peito, mas sorriu.
— Talvez seja só conversa boa no dia certo.
Ela concordou. Riram de novo. O tempo passou rápido demais, como sempre acontece quando ninguém está fingindo interesse. Quando se levantaram para ir embora, não houve pressa, nem promessas grandes.
Só um "a gente se vê?" que soou leve.
E um "gostaria" que, dessa vez, era verdadeiro do jeito certo.
Enquanto saíam do café, ele percebeu que aquela era a primeira parte da história que realmente importava — a que estava sendo construída ali, palavra por palavra, sem atalhos.
Liz:
Os dias passaram, e a praça continuou a mesma — o mesmo banco, a mesma fonte, o mesmo fim de tarde dourado. A única coisa que não voltou foi ele.
Eu apareci no mesmo horário por costume, depois por esperança. No terceiro dia, já era frustração. Tínhamos conversado tanto, rido tanto, e ainda assim esquecido o mais básico: nomes. Era quase engraçado, se não fosse irritante. Como alguém podia ocupar tanto espaço na minha cabeça e, ao mesmo tempo, não ter um nome?
Em casa, abri o notebook. Não para bisbilhotar obsessivamente, eu dizia a mim mesma, mas para perguntar. Amigos próximos, conhecidos da região, mensagens curtas: "Você conhece um cara que frequenta a praça, gosta de café forte e fala demais sobre livros?". As respostas vinham rápidas — e todas negativas.
Foi aí que pensei na livraria.
Ela ficava a duas ruas da praça, silenciosa, com estantes altas e cheiro de papel antigo. Entrei sem muita expectativa, passando os dedos pelos lombos dos livros, quando vi alguém folheando um romance perto da sessão de clássicos. Reconheci antes mesmo de pensar.
— Você sumiu — falei, mais direto do que planejava.
Ele levantou o olhar, surpreso por um segundo, depois aliviado.
— Eu sei. Não foi por querer. Tive que viajar a trabalho de última hora. Nem consegui voltar à praça.
Cruzei os braços, fingindo indiferença.
— Podia ter avisado... se a gente tivesse trocado nomes.
Ele riu, meio sem graça.
— Verdade. Acho que começamos tudo pelo meio.
— Então vamos consertar — disse eu. — Qual é o seu nome?
Ele respondeu, e ouvi com atenção, repetindo mentalmente, como quem não quer esquecer de novo. Disse o meu em seguida. Soou estranho e certo ao mesmo tempo ouvir meu nome sair da boca dele.
A conversa voltou a fluir como no café. Falaram dos livros da livraria, de viagens inesperadas, de como a vida adora bagunçar planos. Não havia pressa, só aquela sensação boa de continuidade.
Antes de irmos embora, ele respirou fundo.
— Posso te chamar para sair? De verdade dessa vez.
Sorri.
— Pode.
— Sexta-feira, às sete da noite?
— Perfeito.
— Restaurante Gourmet Palace.
— Estarei lá.
Quando saí da livraria, percebi que algumas ausências não significam fim — às vezes são só pausas mal explicadas antes do próximo capítulo.
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Gostar não é invadir.
RomanceUma história de amor meio complexa, talvez? Ele forçou tudo? Venha descobrir!💕💕
