Capitulo I - Corrente de Veludo

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  O sol da manhã trespassava os vitrais coloridos da sala de música, pintando o chão de mármore com manchas rubras, azuis e douradas. Ariadne deixava seus dedos deslizarem sobre as teclas do grande piano, extraindo notas que eram menos uma melodia e mais um grito abafado. Cada acorde soava como a batida de um portão que ela não podia atravessar.

"Sua Alteza."

  A voz surgiu da sombra junto à porta, como sempre, sem aviso. Ariadne não interrompeu sua "performance". Sabia que era ele. O som de suas botas de couro no mármore era inconfundível—firme, regular, infalivelmente chato.

"Sua Alteza", a voz repetiu, um tom mais baixo, mas com uma borda de aço por baixo da suposta deferência.

"Estou ocupada, Cavaleiro Valerius", ela disse, martelando um acorde dissonante. "Aperfeiçoando meu... temperamento."

  Ele adentrou a faixa de luz solar, e ela não precisou virar-se para vê-lo em sua periferia. Um monumento alto de armadura polida e capa escura. Cabelo preto penteados para trás, olhos cinzentos como a lâmina de uma adaga. Kaelan Valerius, o mais novo e mais implacável capitão da Guarda Real, há quatro meses, desde que o primeiro ataque do Reino Vorlag contra o Reino Althea começou, designado pessoalmente pelo rei para ser sua sombra. Sua prisão ambulante.

"Sua prática musical, embora... vigorosa, precisará ser interrompida", ele declarou, sem inflexão. "Sua aula de história com o Sábio Fenris começa em cinco minutos. O percurso pelos jardins internos foi cancelado. Iremos pelos corredores leste."

   Ariadne finalmente se virou para ele, levantando do banquinho. Aos vinte anos, ela estava acostumada a ser obedecida, admirada, desejada. Mas com ele, era como se fosse uma criança teimosa.

"Cancelado? Por sua ordem, presumo."

"Por minha avaliação de segurança. O jardim oferece muitos pontos cegos. Os corredores leste são mais seguros."

"São também abafados, escuros e cheiram a mofo de séculos", ela contra-atacou, levantando-se. "Eu desejo ver o sol, Cavaleiro. Preciso dele."

  Ele nem piscou. "O que você precisa, Alteza, é de chegar viva à sua aula. O sol é um luxo. Um luxo que o Reino de Vorlag gostaria de ver negado a você."

   Vorlag. O nome pairou no ar entre eles, um fantasma frio. Por gerações, eles cobiçavam as terras férteis e os portos de seu reino, Althea. Agora, com as tensões no ápice e os rumores de assassinos à solta, ela, a única herdeira, era o alvo mais valioso. E Kaelan Valerius era a corrente de veludo que a mantinha segura—e sufocada.

"Eu não sou uma criança que precisa ser conduzida pelo escuro", ela disse, a voz carregada de desprezo.

"Não", ele concordou, secamente. "Crianças geralmente seguem ordens com mais graça." Seus olhos cinzas a escrutinaram, impessoais. "Cinco minutos. O Sábio Fenris não gosta de ser mantido esperando. Eu aguardo lá fora."

  Ele se virou, suas costas largas e sua capa bloqueando a luz por um momento antes que ele desaparecesse no corredor. Ariadne cerrou os punhos, as unhas cravando-se em suas palmas. No início, quando seu pai o apresentou—um herói jovem, diziam, que repeliu um ataque na fronteira com bravura excepcional—ela tentou ser cordial. Viu nele uma figura intrigante, silenciosa e capaz. Ofereceu-lhe um sorriso, perguntou sobre suas campanhas. Sua resposta tinha sido um relato monossilábico, seguido por: "Minha história não importa. Sua segurança, sim."

  Ela tentou outra abordagem, sugerindo que talvez pudessem variar suas rotinas, talvez uma visita à cidade disfarçada. Ele olhara para ela como se ela tivesse sugerido incendiar o castelo. "Imprudência pura. Você não é uma plebeia para se misturar com a ralé. Você é o futuro da coroa. Aja como tal."

O jardim das Ânforas perdidas Where stories live. Discover now