Agatha Harkness vive de controle. Professora respeitada, mente afiada, emoções bem trancadas, tudo em sua vida segue regras claras. A única exceção é Nick, seu filho, o ponto vulnerável que ela tenta proteger a qualquer custo.
Rio entra nesse mundo...
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Agatha Harkness acreditava, com uma convicção quase religiosa, que o mundo só não desmoronava porque algumas pessoas se recusavam a deixar as coisas fora do lugar.
O despertador tocou às seis em ponto. Não às seis e dois, não às seis e cinco. Seis em ponto. O som seco e repetitivo ecoou pelo quarto ainda escuro, e antes mesmo do segundo toque completo, a mão de Agatha já estava estendida, desligando-o com precisão quase mecânica.
Ela não abriu os olhos imediatamente.
Ficou ali por alguns segundos, respirando, sentindo o próprio corpo despertar antes da mente. O teto branco acima dela não oferecia distrações. Não havia quadros tortos, não havia objetos fora de alinhamento. Tudo naquele quarto seguia uma lógica clara: funcionalidade, silêncio, controle.
Levantou-se sem pressa.
Os pés tocaram o chão frio, e Agatha caminhou até a janela, afastando a cortina com um movimento calculado. A cidade ainda estava acordando. Carros esparsos, o céu num tom indeciso entre o azul e o cinza, aquela luz fraca que não prometia nada além de mais um dia comum.
Era exatamente disso que ela precisava: comum.
Na cozinha, o café foi preparado do mesmo jeito de sempre. Duas colheres exatas de pó. Água medida. Nada de improvisos. Enquanto a cafeteira trabalhava em silêncio, Agatha conferiu o relógio no pulso. Cada minuto tinha um propósito. Cada ação, um encaixe.
- Mãe.
A voz veio do corredor, ainda carregada de sono.
Agatha virou-se imediatamente.
Nick estava parado à porta, o cabelo levemente despenteado, vestindo a camiseta larga que insistia em usar para dormir, mesmo quando ela já tinha separado pijamas adequados. Ele esfregava um dos olhos com a mão fechada, num gesto que sempre fazia o peito de Agatha apertar de um jeito que ela jamais admitiria em voz alta.
- Bom dia - disse ela, com suavidade medida. - Já acordou?
- O despertador tocou - respondeu ele, como se isso explicasse tudo.
Agatha sorriu de leve. Um sorriso pequeno, quase imperceptível, mas verdadeiro.
- Vai se atrasar se não se arrumar.
Nick fez uma careta preguiçosa, mas obedeceu. Passou por ela, deixando um beijo rápido em seu braço, um gesto automático, cotidiano, e ainda assim capaz de bagunçar toda a estrutura interna que Agatha mantinha tão bem organizada.
Ela esperou ele desaparecer no corredor antes de fechar os olhos por um instante.
Nick era o único ponto fora do sistema.
Não porque fosse caótico, muito pelo contrário. Ele era responsável, inteligente, atento. Mas era o único lugar onde Agatha permitia que o medo existisse.