O Encontro

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I

A noite de novembro caía pesada sobre a cidade, trazendo consigo uma névoa densa que parecia engolir as luzes dos arranha-céus. O Grand Hotel Magnificence estava repleto de jovens talentos da comunicação social, todos vestidos em trajes formais, sorrindo para câmeras e trocando cartões de visita como se fossem moedas de ouro.

Vincent Whittman ajustou a gravata azul-marinho enquanto observava o salão do segundo andar. Aos trinta anos, sua aparência era impecável: cabelo escuro perfeitamente penteado, olhos heterocromáticos que transmitiam magnetismo e uma falsa inocência em um sorriso que conquistava audiências todas as noites no noticiário das nove. Sua ascensão na TV Channel 7 havia sido meteórica, talvez até rápida demais para quem prestasse atenção. Três colegas desaparecidos em dois anos, e Vincent sempre estava lá para preencher o vazio deixado, com suas reportagens emocionantes e sua presença carismática na tela.

Ele pegou uma taça de champanhe de uma bandeja que passava, mas seus olhos continuavam fixos em seu alvo da noite: Richard Brennan, produtor executivo da emissora rival, um homem corpulento de cinquenta anos que ria alto demais e bebia rápido demais. Richard estava sendo cotado para assumir a direção de programação da Channel 7, o que significava um obstáculo direto aos planos de Vincent. Isso não podia acontecer.

Vincent já havia planejado tudo. O estacionamento subterrâneo era pouco vigiado após as dez da noite. Tinha estudado as câmeras, os pontos cegos, os horários dos seguranças. Richard costumava sair cedo desses eventos, entediado e embriagado. Seria rápido. Um golpe certeiro, o corpo no porta-malas, descarte no rio antes do amanhecer.

Foi quando ele o viu.

Do outro lado do salão, próximo ao bar principal, havia um homem que parecia absorver toda a luz ao seu redor. Alto, esguio, com cabelo castanho-avermelhado impecavelmente penteado para trás, usando um terno bordô que abraçava seu corpo com elegância quase obscena. Mas era o sorriso que chamava atenção: amplo, constante, quase perturbador em sua permanência, como um predador prestes a atacar sua presa. Os olhos castanhos observavam tudo com uma intensidade que fazia Vincent se sentir exposto.

Alastor Hartfelt. Vincent reconheceu imediatamente. O "Príncipe do Rádio", como a mídia o chamava. Sua voz era lendária, suave como veludo, mas com uma qualidade hipnótica que mantinha os ouvintes grudados em cada palavra durante seu programa noturno. Vincent ocasionalmente ouvia enquanto dirigia, fascinado pela forma como Alastor conduzia entrevistas, como extraía confissões dos convidados sem que percebessem estar revelando demais.

Havia rumores, é claro. Três pessoas ligadas à estação de rádio de Alastor haviam desaparecido no último ano. Um técnico de som, uma secretária, e mais recentemente, um DJ concorrente que estava ameaçando roubar o horário nobre do moreno. A polícia havia interrogado Alastor sobre cada caso, mas nada foi provado. Ele sempre tinha álibis, convenientes demais, pensava Vincent, mas eficazes.

Vincent observou Alastor se mover pelo salão com a graça de um predador. Ele cumprimentava pessoas, ria em momentos apropriados, tocava levemente braços e ombros com familiaridade calculada. Mas havia algo vazio naquelas interações, como se Alastor estivesse representando um papel que havia ensaiado mil vezes.

Então aconteceu.

Vincent percebeu que Alastor também estava observando Richard Brennan. Não de forma óbvia, Alastor era discreto demais para isso. Mas Vincent reconhecia aquele olhar. Era o mesmo que ele próprio usava ao escolher um alvo. Avaliação. Cálculo. A contemplação silenciosa de como seria sentir a vida escapar daquele corpo específico.

Seus olhares se encontraram através do salão, e Vincent sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O sorriso de Alastor se ampliou minimamente, uma mudança quase imperceptível, mas seus olhos comunicavam compreensão. Reconhecimento.

Pacto de Sangue - RadioStatic (Human AU!)Where stories live. Discover now