Eu aprendi cedo que ninguém cuida da gente melhor do que nós mesmas. Não por trauma, não por decepção — mas por observação. As pessoas passam. As intenções mudam. O que fica é o que você constrói sozinha.
Meu apartamento ainda cheirava a novo, apesar de eu já estar ali há algumas semanas. Vidros grandes, cortinas claras, uma vista que eu escolhi mais pela luz do que pelo status. Eu gostava de acordar com o sol entrando sem pedir licença, batendo direto no chão frio da sala e me lembrando, todos os dias, que aquela vida era minha. Conquistada. Planejada. Sustentada.
O celular vibrava em cima da bancada da cozinha pela terceira vez em menos de dois minutos.
— Se você ignorar de novo, eu vou bater na sua porta — a voz de Rafael saiu pelo áudio antes mesmo de eu abrir a mensagem.
Revirei os olhos, mas sorri.
Rafael Tavares não era só meu assessor. Ele era meu ponto de realidade. Meu freio de mão puxado quando eu acelerava demais, e meu empurrão quando eu travava. Amigo de infância, cúmplice de fases que ninguém na internet fazia ideia que existiram. Ele me conhecia antes do feed organizado, antes dos números, antes de eu aprender a posar sem parecer que estava posando.
— Eu tô acordada — respondi, ligando a câmera frontal só pra provocar. Apareci de cabelo preso de qualquer jeito, sem maquiagem, camiseta larga. — E você não manda em mim.
— Eu mando, sim — ele rebateu, já no tom automático de quem me conhece demais. — Principalmente quando você tem publi pra postar às onze e ainda não aprovou a legenda.
— Porque a legenda tá ruim.
— Não tá ruim, tá estratégica.
— Estratégica é uma palavra feia pra algo que deveria parecer espontâneo.
Ele suspirou do outro lado da tela, daquele jeito dramático que só ele fazia.
— Giulia, você trabalha com imagem.
— Eu trabalho com narrativa — corrigi. — A imagem é consequência.
Silêncio por dois segundos. O suficiente pra eu saber que ele estava sorrindo.
— É por isso que você dá trabalho — ele disse. — E é por isso que você funciona.
Rafael morava no mesmo prédio que eu. Não foi coincidência. Foi acordo. Segurança emocional disfarçada de praticidade. Eu dizia que era bom ter alguém de confiança por perto; ele dizia que era pra me impedir de sumir do mapa quando cansasse do mundo. Os dois estavam certos.
Minha rotina não tinha nada de glamourosa quando a câmera desligava. Planejamento, reuniões por vídeo, contratos pra revisar, briefing pra entender, métricas pra analisar. Ser influencer não era só existir bonita na internet, era saber o que mostrar, quando mostrar e, principalmente, o que não mostrar.
Eu era boa nisso. Muito boa.
— Você percebeu que desde que voltou pro Brasil seus números subiram? — Rafael comentou mais tarde, já sentado no meu sofá, notebook no colo, café na mão. — Engajamento emocional. As pessoas gostam de retorno.
— As pessoas gostam de nostalgia — corrigi. — Confundem isso com acesso.
— E você dá acesso?
— Nunca inteiro. — Ele me olhou por cima da tela, atento.
— Continua com essa armadura toda? — Dei de ombros.
— Funciona.
A internet me conhecia como Giulia Ferretti. Confiante. Inatingível. Um pouco fria. Sempre impecável. O que ninguém via era o cálculo por trás de cada postagem, o cuidado silencioso com quem realmente importava, o afeto em detalhes pequenos — responder uma mensagem específica, lembrar uma data, aparecer sem avisar.
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Camisa 7, Segundo Tempo
FanfictionGiulia Ferretti sempre gostou de ter controle sobre a própria vida. Independente, direta e pouco inclinada a relacionamentos complicados, ela aprendeu a manter tudo funcionando bem demais para precisar mudar qualquer coisa. Mas voltar ao Rio signifi...
