Um estrondo forte eclode em seus ouvidos. De novo. Ela abre os olhos. De novo. Leva suas mãos até a testa. De novo. Com certeza um som metálico. DE NOVO! Ela sente as pernas dormentes. MAIS FORTE! Ela engole em seco. POR QUE ESSA PORRA NÃO PARA?! Ao redor, consegue ver paredes feitas de madeira escura, com partes ainda mais escuras onde se alojam tochas flamejantes. O som cessa, mas não por muito tempo. Os pelos de seus braços se levantam tão rapidamente quanto seu próprio corpo. Ela esfrega os pés no chão, sentindo a textura áspera e ressecada da madeira. Nesse mesmo momento, sente que está aqui de verdade. Não é um sonho, não é uma fantasia. É tudo real.
Seu rosto, entrecortado pela luz sutil da chama, queima. Aquele fogo está fazendo algo com ele, não pode ser normal. Não, não, não. Não pode ser o fogo, com certeza não. É frio. É como se ela estivesse com a cara inteira colada em uma geleira. Ela corre para o que parecia ser uma pia, jogando água em seu rosto com uma cumbuca feita de um material branco e grosseiro. À medida que a água escorrega pelo seu busto, ela percebe que está completamente nua. Ela se senta em uma cadeira próxima a uma mesa grande.
— Calma. Respira. — ela diz bem baixinho.
Seus olhos caminham pelo cômodo, percebendo que não estava mais naquele quarto. Seus ouvidos insistem no som metálico, mas parece mais distante agora. Ela finalmente se levanta, vai até uma janela e a abre com dificuldade. Tem algo muito errado. Está tão escuro... Ela se sente dentro de uma grande redoma, impedindo a entrada da luz do sol. Para onde ele foi?
O compasso de seu coração é provocado minuto após minuto pelo tilintar gélido dos metais misteriosos que cercam a casa, até que um som amigável e roncoso passa por debaixo do que deve ser a porta principal e a faz dar um pulinho.
— Miauuun! Miaaaun! Mmmmeaun! — Informa o belo gato que se revelou assim que ela criou coragem para abrir a porta.
— Boa noite, Dona senhorita Desconhecida. Espero que tenha tido um ótimo sono! Viemos revelar as informações mais fresquinhas da nossa vila, estaria disposta a nos ouvir?
Ao lado do gato gentil, está uma senhora, vestida dos mesmos tons que seus cabelos grisalhos. Ela segura um guarda-chuva rosa contra o chão. A senhorita Desconhecida esfrega todo o espaço que circunda seus olhos, com a desesperança de que aquilo fosse um problema de visão pontual - ou, quem sabe, um problema de audição pontual. Com certeza a senhora foi quem falou, e ela tem uma voz um pouco mais grossa que a maioria das senhoras que ela conhecia. Com certeza o gato não mexeu a boca, até porque aquilo era completamente impossível para a ciência. Um gato que mexe a boca daquele jeito e fala que nem gente... não pode ser real.
Ainda sim, lá estava o gato.
— Claro... — diz ela, com um certo desdém na voz.
— Ah, como você é gentil! — diz a senhora, usando o guarda-chuva rosa para terminar de abrir a porta e entrar na casa.
A mulher fecha a porta e não encontra outra alternativa senão ceder sua casa à senhora e seu gato. Na verdade, ela nem está certa de que aquela casa é realmente sua. Ela tem certeza que reconhece os retalhos que formam a toalha de mesa da cozinha, as luminárias de ferro que queimam infinitamente pelas paredes, as cenouras e nabos bem conservados e brilhosos em uma terrina de barro próximo à pia... A senhora pega alguns utensílios que estavam pendurados acima dela, e começa a cortar algumas cenouras.
— Ah, essa cenoura está coberta de banha. Senhorita, aonde posso encontrar um pano por aqui?
— Senhora, acho que não estou entendendo muito bem... Essas são as minhas cenouras, o que está fazendo? — A senhora não responde, mas o gato sim.
— Ah, não se preocupe, Dona senhorita. A vila tem muito mais cenouras do que isso. Falando nisso, essa semana tivemos uma notícia maravilhosa! Nossas cenouras cresceram 3 centímetros a mais graças ao nosso novo adubo, o que significa que a partilha dos alimentos será mais eficaz, já que precisaremos de menos cenouras por morador para compor o peso de cenouras necessário para a semana. Não é maravilhoso? — O gato retira seu chapeuzinho branco na cabeça e o dispõe em um banco.
—- O que quer dizer, homenzinho? Só porque tem mais cenouras na vila, vocês podem entrar na minha casa e roubá-las de mim? — A senhora para o que estava fazendo, e acena com a cabeça em clara desaprovação.
—- Ah, não diga isso... Não somos aqueles que pegam nada sem pedir! Aliás, não existe ninguém que faça isso há algum tempo. — Ele pega o chapéu de volta. — De qualquer forma, estamos de saída. Uma pena que a Dona senhorita não respeita o Gato Jornaleiro, não custa nada um pouco de gentileza... nem queria suas cenouras sebosas mesmo.
A senhora larga a faca e o que sobrou da cenoura na pia, enquanto entrega um pedacinho para o gato, que anda com pressa em direção à saída. A senhora dá um empurrão de leve, fazendo-o ronronar.
— Ora, Theodoro, com certeza a senhorita não foi bem educada, não é culpa dela. — a senhora diz, já do lado de fora. — Veja... Na noite de hoje estaremos todos na grande cerimônia lunar, precisamos mais que nunca da ajuda da lua! Você deve ter ouvido falar do que anda acontecendo... Não esqueça de levar uma oferenda para o rio.
— Do jeito que a senhorita é egoísta, vai querer todas as oferendas para si mesma. — diz o gato jornaleiro, com um ar de riso. — Aliás, nunca encontramos a senhorita ao abrir porta alguma. É algum tipo de feitiço, assombração...? — A senhora o interrompe.
— Vejo que não temos nada a encontrar bisbilhotando a vida de jovens senhoritas, Theodoro. Vamos seguindo para o ferreiro. — ela acena com gentileza e deixa a porta, seguindo a trilha de pedras pelo caminho.
CZYTASZ
A Viajante Lunar
FantasyUma viajante é teletransportada sem memorias para um vilarejo isolado com seres mágicos. Na vila, ela tenta desvendar o maior mistério de sua vida: descobrir de onde veio e qual sua verdadeira missão.
