Rin Sachiko - pov
Eu não sei quando comecei a correr.
Só sei que minhas pernas foram sozinhas, como se meu corpo tivesse decidido fugir mesmo quando minha cabeça já tinha desistido.
A aldeia parou de fazer barulho.
E isso foi pior do que os gritos.
Meu pé esquerdo doía demais, tipo queimando por dentro. Cada passo dava a sensação de que algo ia rasgar, mas eu não parei pra ver. Não podia. Se eu parasse, eu ficava. E se eu ficasse… eu morria lá com eles.
O cheiro de fumaça misturado com sangue tava grudado em mim. Na roupa, no cabelo, na respiração. Tropecei em alguma coisa — raiz, pedra, sei lá — e caí feio no chão. Fiquei ali por um segundo a mais do que devia, pensando se valia a pena levantar.
A lua tava no céu.
Me olhando.
Sempre rezei pra lua. Aquela noite ela só olhava, fria, quieta, como se nada tivesse acontecido.
Eles vieram uivando.
Não era uivo normal. Yokai-lobo não caça só corpo, caça alma, caça tudo que sobra. Eu senti quando eles quebraram os selos da aldeia. Senti os amuletos falharem, as orações da minha família virarem nada.
Ouvi meu pai gritar meu nome.
Minha tia correu pro portão leste sozinha, gritando um selo que não deu tempo de terminar.
Minha vó…
Não. Não agora. Se eu pensar nela eu paro.
Me forcei a levantar, apoiando numa árvore. Minha mão tava quente, estranha. Quando olhei, tinha sangue escorrendo pelos dedos. Meu talismã tava rachado, quase partido no meio.
— funciona… por favor… — falei baixinho, tentando ativar.
Nada.
Nunca funcionava direito comigo mesmo.
Um uivo longe fez meu corpo travar inteiro. Meu coração quase saiu pela boca. O som entrou direto na minha cabeça, trazendo imagens que eu não queria lembrar: olhos brilhando no escuro, dentes sujos de sangue, sombras grandes demais.
Eu sempre fui fraca.
Todo mundo sabia.
Filha de sacerdotisa com gente comum. Sangue errado. Poder pela metade. Desde pequena diziam que eu não ia conseguir proteger ninguém, que eu não era feita pra liderar nada.
E agora tava todo mundo morto.
A floresta me engoliu.
Galhos arranharam meu rosto, bati o braço ferido numa pedra e quase gritei de dor. Tapei a boca com a mão. Gritar era chamar eles. Gritar era acabar com tudo.
Minhas forças acabaram rápido. Caí de joelhos, a testa batendo no chão molhado. Minha visão começou a escurecer nas bordas. O mundo girava.
— não agora… por favor… — falei pra ninguém.
Fechei os olhos por um segundo e vi tudo de novo. O fogo. As bandeiras sagradas queimando. Os símbolos antigos sendo rasgados por garras. Os lobos rindo dentro da minha cabeça.
Quando abri os olhos, eu tava chorando sem nem perceber.
— desculpa… — sussurrei. Não sei pra quem.
A lua ainda tava lá.
Levantei mais uma vez naquela noite. Não foi coragem. Foi teimosia. Culpa. Uma vontade feia de continuar viva mesmo sem saber por quê.
Andei sem rumo, mancando, até meu corpo simplesmente desistir. Quando caí de novo, não senti o chão. Só um cansaço velho, pesado, como se eu tivesse envelhecido anos em poucas horas.
Antes de apagar, pensei que talvez os lobos me achassem ali. Talvez fosse melhor assim.
Mas não acharam.
Quando acordei, ainda tava escuro. A lua tinha mudado de lugar. Meu corpo doía inteiro. A aldeia tava longe agora — longe demais pra voltar, perto demais pra esquecer.
Naquele momento eu era só isso:
Uma sacerdotisa pela metade.
Uma sobrevivente sem casa.
Uma coisa quebrada andando pela noite.
E eu sentia que a noite ainda não tinha terminado comigo
