Oneshot

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A neve caía fina sobre Paris como um sussurro antigo, quase respeitoso.

Não era uma nevasca cinematográfica, dessas que fecham aeroportos e viram notícia, mas o suficiente para cobrir os telhados de Montmartre com um véu branco e transformar a cidade em algo mais silencioso, mais íntimo

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Não era uma nevasca cinematográfica, dessas que fecham aeroportos e viram notícia, mas o suficiente para cobrir os telhados de Montmartre com um véu branco e transformar a cidade em algo mais silencioso, mais íntimo. As luzes de Natal refletiam no chão molhado, multiplicando-se em tons dourados e avermelhados. Korkamon Armstrong encostou a testa no vidro da janela do apartamento alugado, no terceiro andar de um prédio antigo, observando os flocos descerem lentamente.

— Paris sabe como fazer drama.

Comentou, em inglês, com um leve sotaque indefinível, mistura de Londres com Bangkok.

— Você diz isso como se não gostasse.

Respondeu Samanun Anuntrakul, sentada no sofá, dobrando cuidadosamente um cachecol pequeno demais para ser de adulto.

Korkamon sorriu de lado.

— Eu adoro. Só acho que a cidade sabe que está sendo observada.

Ela se virou.

O cabelo escuro de Korkamon estava preso de qualquer jeito, alguns fios escapando e caindo sobre o rosto.

Os traços delicados herdados da mãe tailandesa contrastavam com o nariz reto e o maxilar mais marcado do pai britânico. Paris parecia gostar dela — talvez por isso.

Samanun levantou os olhos, avaliando a esposa com aquela expressão calma que sempre carregava, como se o mundo pudesse ruir e, ainda assim, ela encontraria uma forma de manter a dignidade intacta.

— Beloved vai acordar se você continuar colada na janela.

Disse Samanun.

— E se isso acontecer, não vai dormir antes da meia-noite.
— Ela já está acordada.

Respondeu Korkamon.

— Eu ouvi.

Como se fosse uma deixa ensaiada, uma voz pequena ecoou do quarto ao lado.

— Mamãe?

Samanun suspirou, levantando-se imediatamente.

— Já vou, meu amor.

Korkamon riu baixo.

— Alteza Real rendida ao poder de uma criança de cinco anos.

Samanun lançou-lhe um olhar divertido por cima do ombro.

— O maior reino que existe.

Poucos segundos depois, Beloved surgiu no corredor, arrastando um cobertor quase do tamanho do próprio corpo.

Os cabelos castanhos escuros estavam bagunçados, e os olhos puxados — herança evidente da linhagem tailandesa — brilhavam com excitação.

— Está nevando mesmo?

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