|Capítulo 01|

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   Harrighton
12 de Agosto
01:20

Viviene Ashford

Tapeio a cama e sinto a sua ausência, uma sensação familiar que me aperta o peito como se alguém tivesse fechado a mão sobre ele. A espuma do colchão cede sob o meu corpo, mas não há calor, não há presença, apenas o vazio frio que parece se alastrar pelo quarto silencioso. Como na maioria das vezes, percebo que ele não dormiu em casa mais uma noite. O silêncio é ensurdecedor. Os relógios, os móveis, até as sombras projetadas na parede parecem conspirar para me lembrar de que estou só, mais uma vez.

Viro-me lentamente, quase esperando que ele apareça na porta com um sorriso, mas sei que isso não vai acontecer. Os meus olhos encontram o relógio de cabeceira e noto que são uma e vinte da manhã. O número brilha em vermelho no escuro, quase zombando de mim. A madrugada avançada não é novidade — é apenas mais uma prova de que este lar, que deveria ser refúgio, se transformou numa prisão silenciosa.

Deito a cabeça no travesseiro, tentando engolir o aperto no estômago. Lembro-me de ontem à noite, quando a discussão começou por algo tão pequeno, tão banal, e terminou com ele levantando a mão e eu recuando instintivamente, tentando proteger-me da força que conhecia de cor. Fecho os olhos e a memória volta como uma lâmina afiada, cortando lentamente o que restou de paz naquela casa. Tento respirar, mas o ar parece pesado, quase grudando nas minhas costas, lembrando-me de cada vez que precisei engolir minhas lágrimas, minhas palavras, minha própria voz.

Levanto-me da cama, os pés tocando o chão frio. Cada passo ecoa no quarto grande e silencioso. A casa está vazia, mas cheia de lembranças — quadros nas paredes, fotografias na estante, objetos que antes significavam conforto e agora parecem testemunhar a minha impotência. Caminho até a janela e puxo as cortinas, deixando que a luz da lua banhe o quarto. A cidade de Harrington se estende diante de mim, um mar de luzes e sombras, a vida seguindo indiferente à minha dor. Alguns carros passam nas ruas silenciosas, seus faróis fugazes iluminando o cenário que parece tão distante de mim, tão inalcançável.

Sento-me à beira da cama novamente, abraçando os joelhos, e deixo que o silêncio fale por mim. Tento racionalizar, pensar nas alternativas, mas a mente insiste em me arrastar de volta às memórias dolorosas. Ele sempre encontra uma forma de me fazer sentir pequena, inadequada, culpada. E, no entanto, aqui estou, sozinha, ainda procurando respostas que talvez nunca venham.

O relógio da cozinha marca uma hora e trinta quando finalmente decido levantar-me e preparar algo para beber. A cozinha parece ainda mais fria do que o quarto. Pego uma xícara e encho de água, o som do líquido ao cair no fundo ecoando pelo espaço vazio.

Cada gesto simples se torna um esforço monumental quando a alma está pesada. Tomo um gole, sentindo a água deslizar pela garganta, tentando engolir não apenas a sede, mas também a sensação de abandono.
Volto à sala, observando os detalhes que antes não notava. A decoração cuidadosamente escolhida parece agora uma ironia cruel — cada objeto um lembrete do que a vida poderia ter sido e do que se tornou.

Sento-me no sofá, os braços envolvendo-me num abraço que não existe. A sensação de isolamento é quase palpável, como se uma parede invisível me separasse do mundo exterior, mantendo-me refém do medo, da vergonha e da própria dor.
Penso em ligar para alguém, qualquer pessoa, mas a vergonha me paralisa. Ninguém poderia entender completamente. E eu, que sempre fui forte, sinto-me frágil, quebrada. O telefone sobre a mesa parece um portal para o mundo lá fora, mas também um lembrete de que estou sozinha com os meus segredos, os meus medos, as minhas cicatrizes que ninguém vê.

O tempo passa lentamente. O ponteiro do relógio avança, mas não sinto que o mundo mudou. A dor permanece, silenciosa e insistente, ocupando cada centímetro do meu espaço. E então, sem perceber, as lágrimas começam a rolar. Não há gritos, não há barulho, apenas o som de mim mesma chorando, tentando liberar algo que esteve preso durante anos.
Deito-me novamente, abraçando-me ao travesseiro, mas não há consolo. O medo continua, firme e esmagador, lembrando-me de que ele poderia voltar a qualquer momento. A sensação de vulnerabilidade é total. Estou perdida, sozinha, com o coração acelerado e a mente girando em círculos de terror e confusão. Não há coragem, não há decisão; só há medo. Medo de falar, medo de agir, medo do que ele pode fazer, medo do futuro. E mesmo deitada, o silêncio da casa parece gritar que estou completamente à mercê de algo que não posso controlar.

No meio do medo e da escuridão, a minha mente vagueia para um tempo mais leve, um momento em que tudo parecia diferente. Penso em como conheci o Matthew , num evento elegante em Harrington, onde ele parecia encantador, atencioso e impossível de recusar. Recordo o primeiro sorriso, a primeira conversa, as promessas que soavam tão sinceras, tão tentadoras. Naquele momento, eu não podia imaginar que aquelas mãos, que seguravam a minha com cuidado e calor, seriam as mesmas que mais tarde causariam dor e medo. Mas, apesar de tudo, essas memórias permanecem, misturando-se ao medo presente, como um eco de quem eu fui antes de conhecer a verdade que agora me assombra.

E fico ali, sozinha no escuro, lembrando-me de como tudo começou, tentando entender como a vida pode mudar tanto, como o amor pode se tornar algo tão perigoso, e como o medo pode se tornar um companheiro constante, silencioso e inescapável.

Silenciada Pelo Poder. Where stories live. Discover now