Mapas amarelados e dobrados em dezenas de pedaços, vincados em marcas dentre regiões montanhosas do alpes da Transilvânia, ocultos até mesmo de um olhar analítico, encontrava-se o paradeiro de toda uma vila, habitada por um povo imerso em crenças pagãs desde antes o século XV.
Aos forasteiros que se perdiam em estradas rurais em busca de aventuras, e por fim acabavam por encontrar o acesso a esse inóspito local; era conhecida apenas como "A vila". Entretanto, ao povo que persistia em sua fé, mesmo após tantas das tentativas de cristianização que alcançava as redondezas, o local era conhecido como Vatra Sacrului.
Não existia letreiros formosos, o povo não carregava o nome de sua casa-vila para qualquer desconhecido, todos sabiam onde pertenciam e o que aquele local significava dentro de cada um. Como uma grande consciência coletiva, existia e era um consenso geral, não era preciso falar sobre.
As vilas aos arredores e mais próximas encontravam-se numa faixa de mais de 60 km, ou seja, dois dias de cavalgada, tendo em vista o terreno íngreme e sem estradas pavimentadas de acesso. Era um refúgio, um porto seguro, ou uma prisão...
Um local cercado de mistérios da natureza, intocado pela modernidade do homem, intocado pelas moralidades exacerbadas da civilização avantajada e aflorada do mundo. Um completo centro de estudos; um laboratório para quem soubesse aproveitar das maravilhas do isolamento.
E nesse grande berçário de novas criações, reinava um controle absoluto, enraizado em obediência e fé, e até mesmo milagres.
A isso todos temiam as graças de uma sacerdotisa aclamada por seu povo; Mãe Miranda. Uma deusa, uma divindade tocada pelo próprio Deus negro. E sob seu comando quatro lordes executavam o que seus sagrados proferimentos exigiam.
Um reinado concreto, firme como elos de uma grande corrente, que unidos fortaleciam a potência naquela vila, o domínio. Mas como quem controla a liberdade também se abstém dela, os lordes eram também carcereiros dessa prisão. O tempo já não era novidade, anos que se tornavam décadas e essas por consequência tornando-se um século de exaustivas tentativas e trabalho árduo da grande Sacerdotisa em prol de um único objetivo; sua filha Eva.
...
Distante desse ninho de histórias e experimentos encobertos por milagres, o vislumbre de um ar a respirar parecia incerto, estranho e até hostil. Era cômico como alguém como ela se sentisse assim fora de sua terra natal. Ali, era apenas uma mulher, uma pessoa comum, alguém longe do peso de uma mãe, de uma sacerdotisa de uma vila, de uma deusa encarnada.
Ousava pensar que não era ninguém. Um infortúnio a falta do reconhecimento e temor estar subjugado a outrem, pelo simples fato de não ser reconhecida pela falta de seu povo.
Permitiu seu cabelos serem elevados pelo vento, inalar o ar pungente da natureza que invadia a vila mais moderna do que a sua natal. Aos poucos, permitiu que o som da civilização fosse penetrando sua percepção, tomando sua atenção, conectando-se aos poucos ao novo local como uma nova sinapse que se instaura ao acoplamento de um novo neurônio.
A figura feminina caminhava certa, confiante numa postura quase monumental, uma divindade afinal...E lembrando-se em meio a sua caminhada, que seu propósito ali era descansar, dispersar da sua persona original, poderia enfim ser apenas uma mulher, longe dos olhos do quem já a conhecia, e saberia como?
Os ombros foram relaxando, os olhos tomando curiosidade analítica, a mente tentando desacelerar, embora seus olhos sempre caíssem por mulheres próximas, por meninas até, que pudessem ser um bom receptáculo, um meio de Eva retornar.
Não...Nessa vila não...
Precisava dispersar ao menos um pouco de seu propósito constante... Tentava convencer-se de que não estaria negligenciando sua filha por dar-se um momento de descanso, uma pausa para respirar, e no fundo conhecia bem a si mesma, sabia que sua mente trabalharia melhor com uma pausa, ao invés de persistir em erros constantes com a mente atribulada.
Era apenas um passeio, um contato diferente fora da sua bolha para respirar e então poderia retornar, Eva entenderia... se sua pequena estivesse ali ela desejaria o melhor para sua mãe.
Caminhou por entre a feira que acontecia. Estava bem movimentada, os chamados dos vendedores ecoavam em disputa anunciando os melhores produtos cativando a clientela.
Miranda gostava disso, do movimento da ação constante, da conquista... mesmo ali naquela vila com o intuito de relaxar, parecia impossível desaprender e se distanciar de anos de práticas ágeis e focadas.
Os olhos que miravam o povo contavam mais que aparentava. Eram ainda olhos de uma líder, olhos de uma Deusa que assiste seu povoado como quem espera o próximo erro previsível, o próximo passo distinto para se rearranjar. Como uma mãe que observa filhos aprendendo a socializar. Seus olhos buscavam a novidade, o imprevisível, o fora da curva, mas sua mente, já sabia cada passo alheio. Cada situação medíocre que os humanos se metiam. Era como assistir a um filme já conhecendo todas as falas. Um presente do Deus Negro, não pelo vislumbre tedioso da humanidade, mas pelo tempo já vivido para poder constatar por si mesma que a humanidade não progride na mesquinharia.
Mercadores gritando preços de oferta, frutas de baixa qualidade vendida feito água, clientes negociando preços que desvalorizavam o tempo e energia de cada vendedor. Nada disso valia. O mundo externo à sua criação era obtuso, imprevisível, fugia do seu controle.
Mas fora de seu espaço tempo, alguém capta sua visão, uma mulher de sua época, com trajes mais despojados e olhar doce mas afiado com algo mais além. Continha uma bolsa de alça amparada nos ombros, calça e camisa mais folgada. Tudo lhe apontava a ser algum tipo de forasteira, uma turista perdida. Havia um ar de exploradora consigo, de curiosidade.
Ela conversava com uma comerciante, vez ou outra a cabeça acenava em concordância em algum assunto, sorrindo suavemente, e por fim suas mãos seguravam a da senhora com certo apreço. E assim seguia a mulher, conversando em algumas barracas ora com um comerciante, ora com algum cidadão que passava.
Era curioso e intrigante como a mulher parecia obstinada e incansável, seria alguma responsável pela liderança daquele vilarejo?
Estava sendo Mãe Miranda novamente, aquele local não lhe era de nenhum interesse. Complexo se despir de uma veste que parecia parte do próprio corpo, de quem era de fato. E não era totalmente uma inverdade, mal se recordava quando era apenas uma aldeã em sua própria vila. E agora estava aqui, há quilômetros de distância de seu império, desejando ser apenas uma mulher comum, sem sua armadura, sem seus trajes sacros... destituída de tudo; súditos, lordes e título.
— E você não é daqui... - Uma voz doce mas firme ecoou ao seu lado lhe pegando de surpresa.
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O Corvo Branco
FanfictionLonge da vila onde seus experimentos floresceram na escuridão, Mãe Miranda busca algo que jamais permitiu a si mesma: descanso. Mas não esperava que a fuga de si mesma fosse engolfada por uma mulher curiosa que surge em seu caminho... ATENÇÃO: **Nã...
