Rabiscos

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A chuva era audível do lado de fora, batendo contra o telhado do The Monica Club com violência. O clima era ameno, relativamente compreensível para meados de outono.

O clube estava bem vazio, se parasse para pensar. Tirando ele próprio, só haviam mais quatro pessoas no lugar, o que o deixava anormalmente silencioso. Para um local como aquele, que estava sempre repleto de vida e música, seja à noite durante os shows, ou de tarde nos momentos de treino, a sensação de andar e poder ouvir seus próprios passos era bizarra. Causava até uma sensação de estranhamento.

Eloy entrou na área principal do clube, onde aconteciam os shows. O The Monica Club poderia, de fato, ser uma fachada utilizada para ocultar as atividades ilegais do Opspor, mas era inegável fingir que era só isso. Contra todas as expectativas, aquele lugar realmente se tornou muito mais do que uma base para vender drogas.

Aquele era o lugar deles: os Psikolera. Quem se importa se Giovanni era o dono? Quase todos que iam lá procuravam por eles e a música deles.

Eloy olhou para o palco onde seus instrumentos estavam, sorrindo orgulhosamente em pensar na adrenalina que persistia em suas veias enquanto se lembrava do show da noite anterior.

Tinha sido foda. Como todas as outras vezes em que se apresentaram.

Balançando a cabeça, ele deixou sua visão vagar até encontrar os outros habitantes do clube.

Dani estava atrás do balcão, remexendo nas garrafas dispostas nas prateleiras, mais em uma tentativa de ocupar suas mãos, do que na intenção de realmente corrigir algum erro. Ela usava uma jaqueta preta por cima da camiseta de merch da banda, e seus olhos corriam até o celular desbloqueado ao seu lado a cada poucos minutos.

Provavelmente esperando a coreana.

À menção de Jae, seu cérebro imediatamente voltou a fornecer imagens da Kemi. Ele tinha estado com ela ainda nesta manhã, após ambos terem passado uma noite e tanto juntos, mas mal podia esperar para vê-la novamente.

Com um bom humor renovado ao pensar na mulher que tem sido tão frequente em sua vida nos últimos meses, ele seguiu observando o ambiente até encontrar a outra alma viva que também estava presente. Foi aí que ele notou o porquê da sensação de estranhamento.

Franco estava sentado à bancada do bar, debruçado sobre os próprios braços. Em silêncio.

Parte de seu bom humor foi substituído por uma inquietação, alarmes soando em sua cabeça enquanto ele se aproximava do pirralho da banda.

Mais de perto, ele conseguiu perceber com precisão o que o garoto estava fazendo, e ficou realmente intrigado sobre se a atividade era mais chocante do que o silêncio. Ele estava desenhando.

Franco. O guitarrista agitado, que precisava estar constantemente em movimento, divagando sobre quem sabe o que só porque podia e sabia que os demais não o mandariam se calar. O garoto que detestava atividades que o obrigassem a ficar sentado e a manter a concentração por muito tempo, porque seu déficit de atenção era inegável. Este, este mesmo garoto, estava desenhando. Desenhando!

Eloy se aproximou rapidamente, pairando ao lado do ruivo para inspecionar os rabiscos, ainda chocado demais para questionar. Perto de Franco, ele percebeu três coisas: 1) Que o celular dele estava desbloqueado e aberto no Google, mais em específico na imagem de algum pássaro; 2) Que ao invés de utilizar uma folha de papel, o garoto estava desenhando com uma caneta permanente no dorso de sua mão esquerda e 3) O desenho era realmente bom!

Não que se parecesse com a obra de algum artista ou algo do tipo, não, aliás, o rabisco do pássaro estava tremido e levemente borrado. Mas era reconhecidamente um pássaro! E da mesma espécie que a imagem que estava aberta no celular.

Tendo visto em primeira mão como Franco fazia rabiscos apressados e quase indistinguíveis sempre que precisava de alguma informação que fosse além da escrita – Mesmo sua caligrafia era estranha, beirando os hieróglifos -, Eloy estava muito surpreso.

Quando foi que Franco arrumou tempo para aprender a desenhar? Não, uma pergunta mais precisa, quando caralhos Franco arrumou paciência para aprender a desenhar?

Felizmente, um pequeno resquício de que seu pirralho não havia sido abduzido por aliens e substituído por uma cópia imprecisa, ele finalmente pôde escutar os murmúrios baixos do garoto.

Sim, ele ainda não consegue ficar em silêncio.

— Sem pressionar com força, você foca no contorno e depois adiciona os detalhes...

Seja lá qual tutorial o garoto assistiu, as palavras do instrutor pareciam um mantra sagrado em sua cabeça enquanto ele as ressoava repetidamente.

Eloy lançou um olhar para onde Dani estava, sentindo a urgência de confirmar que mais alguém estava vendo a mesma situação paranormal que ele. A mulher apenas deu de ombros, puxando um pano que estava sob a bancada e passando a tirar o pó de alguns copos de vidro.

Vendo que estava sozinho para lidar com a situação, visto que a única outra alma presente no clube inteiro era Mosto fazendo a segurança do lado de fora, Eloy puxou o banco ao lado de Franco e sentou, limpando a garganta para atrair a atenção do mais novo.

— Ei, Franco.

O garoto entoou um cumprimento no fundo da garganta, terminando a forma arredondada que estava desenhando antes de erguer os olhos para encontrar o amigo.

— E aí, Eloy? – Seus olhos desceram para o pescoço do mais velho, antes de se voltar para o desenho com um tom avermelhado nas bochechas. – Noite agitada, hein.

Ele logo se lembrou das marcas arroxeadas que Kemi havia deixado para trás, um lembrete claro do que eles haviam feito. Uma pena para Franco, mas as marcas não o faziam sentir nada além de orgulho e êxtase pela próxima vez em que veria a mulher.

Ele riu, ouvindo um assobio de Dani, que só agora parecia ter notado as marcas. – Pode acreditar, garoto. – Balançou a cabeça, aproveitando como o clima parecia descontraído, apesar da vergonha de Franco.

Ele ainda ficava vermelho quando estava envergonhado e parecia sentir repulsa pelo silêncio. Talvez ainda fosse o pirralho deles.

— Então... – Começou, observando o garoto terminar o desenho com um sorriso brilhante. – O que você tá fazendo?

— Um tordo. – Levantou o braço, mostrando orgulhosamente a imagem que ele próprio havia feito. – Ficou foda, não é?

— É, ficou. – Assentiu, genuinamente concordando com a afirmação. Um sorriso surgiu em seu rosto ao observar a alegria contagiante e quase infantil do mais novo. – Onde você aprendeu a desenhar assim?

— Ah... – Os olhos do garoto se voltaram para o desenho com adoração, um sorriso extremamente carinhoso surgindo em seus lábios. – Tive um bom professor.

Em um pulo, os olhos do garoto se arregalaram e ele saltou do banco, catando o celular do balcão e começando a caminhar rapidamente para fora da sala. – Preciso fazer uma coisa. Até mais, Eloy!

Eloy piscou, atônito, encarando o lugar vazio no banco a seu lado. Dani parecia entretida, apesar da confusão também estar estampada em seus olhos.

Uma risada borbulhou em sua garganta sem que ele sequer soubesse a razão. Seja lá qual fosse o motivo por trás do comportamento estranho e do novo hobby, fazia Franco feliz. Fazia Franco se iluminar como uma criança na véspera de Natal, ansiando pelos presentes e com a esperança inocente e ingênua da vinda do Papai Noel.

Inocente e ingênuo? Ha.

Balançando a cabeça com um largo sorriso, ele se deu por satisfeito.

— Até mais, então.

Influência dos Pássaros Geschichten, die süchtig machen. Entdecke jetzt