O último voo foi cancelado. As estradas estão fechadas. E o único quarto disponível no hotel precisa ser compartilhado.
Os planos de férias de Eduarda e Lorena são arruinados quando uma nevasca as deixa presas na pequena cidade de Watertown, forçand...
A vida não é sobre esperar a tempestade passar, mas aprender a dançar na chuva.
— Vivian Greene
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EDUARDA ✦ . ⁺ . ✦ . ⁺ . ✦
O som chiado do sistema de som do aeroporto cortou o leve burburinho de conversas no pequeno terminal do Aeroporto Regional de Watertown. Eduarda Fragoso levantou os olhos do laptop, seus dedos parando no meio da digitação.
"Senhores passageiros," anunciou uma voz metálica, a animação forçada do locutor mal disfarçando sua frustração, "devido à tempestade de inverno, lamentamos informar que todos os voos programados para as próximas três horas foram cancelados. Pedimos desculpas por qualquer inconveniente. Por favor, verifiquem com o balcão da sua companhia aérea as opções de remarcação."
Um gemido coletivo ecoou pelos passageiros espalhados. Eduarda fechou o laptop com força, enfiando-o na bolsa a tiracolo enquanto se levantava apressada. Ela não ia deixar um pouco de neve impedir sua chegada a Minneapolis para o Natal. O bebê de sua irmã podia nascer a qualquer momento, e Eduarda havia prometido que estaria lá.
Ela entrou na fila que rapidamente se formava no balcão da companhia aérea, instintivamente levando a mão para afastar seu cabelo tingido de laranja. Batendo o pé impaciente, ela olhou para o relógio e suspirou. Sim, a tempestade estava intensa lá fora — na verdade, era sorte terem conseguido pousar ali para a escala —, mas se conseguisse um lugar no próximo voo disponível, talvez ainda chegasse em casa hoje.
Eduarda se aproximou do balcão, exibindo o que esperava ser um sorriso cativante para a atendente com aparência cansada. "Oi, tem alguma chance de ainda haver um lugar no voo das seis para Minneapolis?"
"Você deu sorte." A atendente digitou no teclado. "Temos apenas um lugar disponível. Só um instante..."
"Com licença," uma voz interrompeu atrás de Eduarda. "Eu não pude deixar de ouvir. Só há mesmo um lugar disponível?"
Eduarda se virou e viu uma jovem de cabelos pretos e brilhantes levemente enrolados e olhos esverdeados cheios de preocupação.
"Lamento," disse a atendente, "mas sim, só temos um lugar disponível na classe econômica. E essa passageira," ela gesticulou para Eduarda, "já está reservando."
"Por favor." A mulher deu um passo em direção ao balcão, praticamente empurrando Eduarda para o lado. "Eu realmente preciso chegar a Minneapolis. É extremamente importante. Não tem nada que você possa fazer?"
Eduarda sentiu um lampejo de empatia, mas a reprimiu. "Sinto muito," disse ela, tentando manter a voz neutra, "mas eu também preciso chegar a Minneapolis. Também é importante para mim."
"Você não entende. Eu preciso estar lá para o Natal, e sou passageira da classe executiva. Paguei mais pela minha passagem, então certamente isso deve contar para algo, não?"
Reprimindo a vontade de revirar os olhos, Eduarda balançou a cabeça. "Todo mundo aqui precisa ir para casa no Natal, princesa. Desculpe. Esse lugar é meu."
"Não me chame de 'princesa'. Como ousa? Você nem me conhece." A expressão da mulher endureceu. "Tudo bem," ela cuspiu. "Aproveite o voo."
"Não sei o que a faz pensar que é especial," Eduarda murmurou para a atendente, que assistia à troca com uma expressão exausta.
"Ei, eu ouvi isso!" a mulher gritou por cima do ombro enquanto se afastava furiosa. "O karma é cruel, e você vai pagar por isso."
Eduarda suspirou, ignorando o comentário. "Eu fico com o lugar." Atrás dela, ouviam-se suspiros e murmúrios irritados dos outros passageiros que ficariam presos em Watertown. Ela chegaria tarde para o jantar em família, mas pelo menos conseguiria chegar em casa.
Enquanto a atendente processava sua reserva, Eduarda olhou na direção em que a mulher tinha ido. Lá estava ela ao telefone, gesticulando com as mãos, sem dúvida a amaldiçoando para quem quer que estivesse do outro lado da linha.
"Aqui está, Sra. Fragoso. Feliz Natal."
"Obrigada. E Feliz Natal para você também." Eduarda lançou um sorriso simpático para a atendente e apontou para a fila atrás dela. "Espero que eles não te deem muito trabalho."
Com o novo cartão de embarque em mãos, ela procurou um lugar para esperar pelo voo, mas com o aeroporto lotado, todos os assentos estavam ocupados e ela teve que se contentar com o chão. Saindo de Seattle naquela manhã, já tinha sido um dia longo, mas decidiu aproveitar o tempo para amarrar as pontas soltas do trabalho antes do Natal.
Como engenheira de software em uma startup promissora, Eduarda estava trabalhando em um aplicativo inovador de assistente pessoal movido por IA. O projeto foi projetado para antecipar as necessidades dos usuários com base em suas rotinas diárias, eventos do calendário e até mudanças sutis no tom de voz para avaliar a saúde mental. Era tecnologia de ponta, ultrapassando os limites do processamento de linguagem natural e aprendizado de máquina.
A viagem a Seattle foi para resolver alguns bugs no módulo de reconhecimento de voz. Eduarda passou dias longos e noites ainda mais longas ajustando algoritmos e refinando o código. Havia feito progressos significativos, mas ainda restavam alguns problemas persistentes para resolver antes de o aplicativo passar para a fase de testes beta.
Meia hora se arrastou, até que o sistema de som voltou à vida.
"Senhores passageiros. Lamentamos informar que, devido ao agravamento das condições climáticas, todos os voos restantes de hoje foram cancelados. O aeroporto será fechado em breve. Nossos representantes das companhias aéreas estarão disponíveis no balcão de atendimento ao cliente para ajudar com opções de remarcação e fornecer informações sobre tarifas de hotéis com desconto para passageiros retidos. Estamos trabalhando com hotéis locais para garantir acomodações, mas estejam cientes de que a disponibilidade pode ser limitada devido à alta demanda. Pedimos desculpas pelo transtorno e agradecemos pela compreensão."
O anúncio atingiu Eduarda como um soco no estômago. Ela ficou ali, atônita, enquanto o caos explodia ao seu redor. Passageiros correram para os balcões das companhias aéreas, vozes se elevando em raiva e desespero. Mas Eduarda sabia que era inútil. Filas enormes já estavam se formando, e quando fosse sua vez, não haveria mais quartos disponíveis. Ela estava presa em Watertown, Dakota do Sul, e precisava encontrar um lugar para ficar.
Ela pegou o telefone para ligar para a irmã, mas a ligação não completava. "Ótimo," murmurou, "as torres de celular devem estar fora do ar." O Wi-Fi do aeroporto também estava fora do ar, e o aplicativo de reserva de hotéis não respondia. Enquanto continuava tentando se conectar, Eduarda ouviu fragmentos de conversas ao seu redor. Todos estavam nervosos em garantir acomodações para a noite. Ouviu menções ao Watertown Inn, ao Pine Lodge, algo chamado Mistletoe Motel e vários outros hotéis fora da cidade.
A realidade da situação caiu sobre ela. Precisava ligar para a família, encontrar um lugar para ficar, descobrir como chegar a Minneapolis se a tempestade persistisse amanhã. Notando que algumas pessoas já corriam para o ponto de táxi, decidiu que não podia perder mais tempo. Não em Watertown, com centenas de passageiros presos.
A rajada de vento gelado quase derrubou Eduarda quando ela saiu. A neve rodopiava ao seu redor, reduzindo a visibilidade a meros metros. O mundo além era uma tela branca, as formas familiares de carros e prédios obscurecidas pela nevasca implacável. O frio cortante queimava sua pele exposta, e ela puxou o cachecol sobre o nariz.
Enquanto avançava em direção ao ponto de táxi, suas botas afundavam vários centímetros na neve fresca. O vento uivava, abafando os sons dos viajantes frustrados atrás dela. Flocos de neve grudavam em seus cílios, e ela piscava rapidamente, apertando os olhos contra o ataque.
O brilho amarelo dos faróis de um táxi perfurava a cortina branca à frente, e ela apressou o passo. A corrida por abrigo estava apenas começando.