Minha irmãzinha pequena adorar brincar de boneca. Todo dia ela repete as mesmas aventuras com umas cinco ''barbies'' compradas por minha mãe com tanto carinho e suor do seu trabalho. Adoro ver ela nesse transe. Alheia as vozes do ambiente e a tudo em sua volta. É como se naquele breve período diário, seus pensamentos voassem longe e se concentrassem em criar mais uma narrativa para aquelas mesmas cinco personagens. E mesmo que nem todas tenham roupinha e estejam completas, ela brinca do mesmo jeito. Acho que não se importa.
Lembrei-me de uma história que ouvi durante uma das minhas chatas aulas escolares. A professora contou sobre o paradoxo do barco de Teseu. Logo de cara já me chamou atenção. O que seria um paradoxo? A palavra soava bonita e misteriosa. Decidi que, dessa vez, iria prestar atenção no que fosse contado. Foi assim que ouvi a professora, com sua boa oratória e didática, narrar sobre uma maravilhosa embarcação do grande herói da mitologia grega, filho do rei Egeu de Atenas, famoso por sua bravura por ter derrotado o temível Minotauro. Depois ela veio com um questionamento que se fixou como cola em meus pensamentos: Se o barco quebrar, e tiver suas peças todas substituídas, seria ele ainda o mesmo barco? A princípio falei:
— Claro que sim, por que mudaria pró?
E ela com toda calma e elegância respondeu:
— Se o que fazia dele barco era sua estrutura, suas madeiras, seu lastro, sua âncora. Quando tudo isso foi substituído, sua essência não seria perdida, Pedro?
A partir disso eu percebi que ela podia ter razão. Não tinha mais resposta para dar. Será que ela estava certa ou estava eu? Paradoxo... palavra desafiadora.
Não sei porque, decidi tirar a dúvida com minha irmã. Sentia que, de alguma forma, aquela menininha, com seus 5 anos de idade e com toda sua ingenuidade infantil pudesse me responder aquele dilema complexo:
— Luna, você acha que se você consertasse suas bonecas elas permaneceriam sendo iguais para você? — perguntei enquanto ela ainda estava dentro do transe lúdico de suas fantasias.
— Minhas bonecas não são sempre iguais, maninho. A Suzie, a Selena, a Taylor, a Vick e a Maria variam muito. Têm momentos em que elas são médicas, veterinárias, astronautas, cantoras, sereias, princesas, fadas. Não ligo se estão quebradas ou não.
Senti que, talvez, ela não tivesse entendido direito minha pergunta. Sua leveza infantil a guiou por outros caminhos. Queria que ela entendesse aonde eu queria chegar:
— e se eu quebrasse todas elas?
— Ai elas seriam amigas no cemitério. Mas ainda seriam minhas bonecas.
E não precisava ela dizer mais nada.
