A parte cruel do poder, é que não importa o quão bom e justo você seja. Vence aquele que detém maior poder que você. Ética, bondade, justiça, nada disso importa. Mesmo que o mundo tente fazer você acreditar que pode escolher aquele que te governa, quem terá as cordas deste boneco de ventríloquo sempre será quem consegue lutar por esse controle. Não importa como você luta em uma guerra, e o que faz durante o processo, importa se você a vencerá ou não.
Off Jumpol Adulkittiporm era um tirano, um ser cruel, vingativo, sujo e maldito. Sua beleza inata e de tirar o fôlego daqueles que ainda podiam respirar, não significavam nada mediante o quão podre e feia era a sua alma. Ele era um vampiro de milhares de anos, antes não passava de um servo leal de seu mestre-criador, um jovem belo e adorável, amável e mimado, mesmo que travesso e devasso. Todos tinham grandes expectativas sobre ele, afinal, Jumpol sempre foi habilidoso; especialmente porque seu mestre lhe dava atenção especial e o ensinava técnicas que ele nunca ensinou para nenhum dos outros. Falando assim, até parece que estamos falando de uma boa relação, todos também pensavam que era, e que Jumpol respeitava seu mestre como um devoto venera um deus. Mas como era de se esperar de um carrasco como ele, mesmo seus sorrisos eram falsos e escondiam objetivos sanguinários.
Matar um mestre-criador, ou como informalmente conhecido “o rei dos vampiros”, só pode ser feito de uma maneira: obter mais poder do que ele, adquirir o dom da praga e matá-lo com seu próprio veneno. Se tornando assim, aquele que passa a governar a própria raça; após matar tantos da própria espécie, todos já estavam com medo de qual seria o próximo passo de Jumpol. Mas ninguém esperava que seu próximo passo seria também, o último.
Seu mestre cuspiu um bocado de sangue, seus olhos vermelhos marejados enquanto ele apertava os ombros de Off com força, sentindo os dentes cravarem em seu pescoço a ponto de arrancar sua carne, e a adaga perfurar sua costela forte o suficiente para atravessar o osso.
— Então é isso? - Ele tossiu, grunhindo de dor: Você queria me matar esse tempo todo? Eu não entendo… - O homem disse, com a aparência fria e apática de sempre, como se ele não estivesse à beira da inexistência depois de ser banhado em séculos de imortalidade: - Que tipo de pessoa você se tornou?
Off sentiu a raiva consumi-lo por inteiro, suas mãos normalmente frias tremiam enquanto ele enfiava aquela adaga ainda mais fundo, ouvindo a carne rasgar a cada movimento. Seus olhos brilhando com sede por sangue enquanto seus lábios eram encharcados pelo líquido vermelho de seu mestre. Sua voz tornou-se rouca, enquanto ele sussurrava para o rei, que antes tão poderoso agora não passava de um inseto despedaçado em seus braços:
— Pessoa… é um substantivo dado a humanos. Coisa que graças a você, eu não sou a séculos, graças a você… eu não passo de um monstro. Eu matei a pessoa que eu mais amei na vida por causa dessa maldita praga, eu vi toda a minha família morrer uma a uma enquanto eu era condenado a eternidade… eu tive que machucar pessoas para não ser torturado pela fome. E tudo isso, é culpa sua.
Jumpol tinha planejado esse dia desde o momento em que se deu conta de que estava morto, condenado a ser algo que nunca escolheu. Desde o segundo em que viu sua noiva morrer por suas próprias mãos em um ataque de fúria e descontrole, ele esperou e calculou tudo para escutar o som dos órgãos de seu mestre rasgando por dentro a cada vez que Jumpol o esfaqueava, vendo aquele homem sempre banhado em sangue humano, agora afogado no seu próprio. Mas ele não se preparou para aquela reação. “Como você ousa sorrir para mim?” - a pergunta ecoou com uma raiva que sufocava Off, mesmo que ele sequer precisasse respirar. Seu rosto foi tocado enquanto ele assistia seu inimigo derramar algumas lágrimas e acenar:
— Que isso te traga paz… - Os olhos dele se apagaram, ele parou de usar a sua magia para tentar se manter vivo. E finalmente, entregou-se à morte nos braços de Off Jumpol. O homem de olhos arregalados, agora vendo seu maior sonho se concretizar.
Então, o Carrasco derramou lágrimas que ardiam ao tocar a pele de seu mestre, que devido à sua extensa idade apodrecia rápido demais em seu colo.
Agora, o temido rei dos vampiros havia concluído sua vingança. Ele matou o último e principal autor de seu sofrimento, seu mestre se desmanchou completamente e sua existência e história já não valiam de mais nada. Jumpol venceu a guerra, não importa quantas pessoas tenha matado, enganado e traído, ele venceu, o mundo era seu.
Então… Off segurou o corpo de seu mestre, e chorando em pleno sofrimento o abraçou enquanto sentia sua pele se desmanchar em pura podridão: — Eu te odeio… eu odeio o que você fez comigo, eu odeio tudo em você! Mas você era tudo o que eu ainda tinha. Era tudo o que me restava. - O vampiro sussurrou sorrindo, àquele que não podia mais ouvi-lo.
Jumpol cumpriu sua missão, e o preço, foi estar completamente sozinho no mundo, sem amor ou pessoas colocando expectativas gentis sobre o que ele poderia ser: - Você foi o meu último ato, mestre.
Off o segurou, e o levou pelo castelo rústico até o topo de uma colina. Depositou o corpo do antigo rei em um caixão vermelho extremamente belo e luxuoso, envolto por flores. Então, ele caminhou até o caixão ao lado daquele. E deitou-se nele, encarando o céu escuro e como as estrelas brilhavam naquela noite. Esqueça a história de que vampiros dormem em caixões, ou a história de que são seres noturnos que queimam no sol, o único momento em que um vampiro se deita em um túmulo é quando a inexistência o acolhe tal como um afago de uma mãe. Jumpol fechou os olhos, ele não tinha motivo para sorrir. Ele havia matado mais pessoas do que poderia contar nos dedos, desde as impuras até às inocentes, ele havia traído pessoas que confiavam nele em nome de sua vingança cega, e não pôde salvar a mulher que amava. No fim, governar um povo que o temia enquanto dormia com mais homens e mulheres do que os séculos poderiam calcular não valeram absolutamente nada. Off continuava sendo um miserável.
Jumpol mordeu seu pulso, injetando seu próprio veneno mortal em si mesmo. Era uma morte dolorosa, porque era lenta, o veneno matava cada um de seus órgãos de uma em uma hora até que eles deixem de funcionar, ser imortal não te inibe de dor. Mas Jumpol já havia sofrido tanto, que para ele aquilo não importava. Ele sabia que assim que descobrissem que seu mestre estava morto, todos iriam querer sua cabeça: mais uma coisa que Off não deixaria para ninguém. O caixão se fechou, e o carrasco morreu junto ao seu criador.
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O Carrasco - OffGun
FanfictionA morte é a única certeza que temos conosco, a maioria das pessoas a temem. Mas Off Jumpol daria tudo em troca da mortalidade, daria tudo para não ter a certeza de que sempre haveria um dia se amanhã. Gun Atthaphan o amaldiçoou com a imortalidade e...
